Nelson Barros

Nelson Barros é psicoterapeuta e escritor.


Por Que Tanto Ódio, Meu Jovem?

Porque você não ganhou uma caixa de lápis de cor e um caderno com as folhas todinhas em branco, loucas por rabiscos coloridos, casinhas com telhado vermelho e uma árvore ladeando.

Porque não foi à missa do domingo, mesmo sem querer, para acompanhar dona Maria, que por você fazia preces e lhe ensinou a confiar no anjo da guarda. E não saia dali com o corpo de Cristo na língua, tendo cuidado para não mastigar.

Porque não teve dona Salete segurando sua mão, enquanto você fazia as curvas sinuosas dos ‘esses’ no caderno de caligrafia. Nem aprendeu a transformar o número dois em um pato.

Porque a porta da sua casa não ficava aberta pra quem quer que fosse, nem sua mãe oferecia um cafezinho. E um pedaço de bolo. Pra quem quer que fosse e viesse para o bem.

Porque seu pai não lavava o carro na calçada e isso era o motivo para um banho de mangueira, enquanto o chuvisco de gotas apontadas para o sol, produzia um lindo arco-íris.

Porque aprender a andar de bicicleta era uma farra, quase um rito de passagem. Era também um exercício de compartilhamento. Mas você não sabia, porque seu pai não disse que era pra deixar os amigos darem uma voltinha. Essa voltinha parecia uma eternidade. E você acabou não aprendendo que dividir é igual a somar.

Porque sua mãe não lhe ensinou que a professora era quem mandava. “Lá em casa sou eu, na escola é ela”. Aí você não aprendeu a amar a mais linda das profissões.

Porque você não ficava com a vizinha, quando seus pais viajavam. Então não aprendeu a confiar em gente, e que gente é pra cuidar de gente.

Porque você não voltava da escola com seus amigos, sem ter noção nenhuma de cor, classe social, nome de família , apenas louco pra tirar a farda e brincar no meio da rua, com bola, castanhas, ‘bilas’ de vidro ou só com as pernas, mesmo. E muita gritaria.

Porque você não aprendeu que não se nega um copo de água. Que ninguém é melhor que ninguém. Que a palavra vale ouro. E o silêncio também.

Porque nem seu pai, nem sua mãe, nem o pastor, nem a professora lhe ensinaram que a gente deve amar o próximo como a si mesmo e que essa é a única forma de amar a Deus sobre todas coisas. Seja qual for sua forma de pensar Deus.

Rapaz… eu penso que foi amor que lhe faltou. E humor.

Te faltou denguinho de vó, cafuné, gibi da turma da Mônica, dançar o ‘pai Francisco’, cachorro, gato, banho de biqueira, história de Trancoso, barco de papel, cabo de guerra, fruta no pé, bola de meia, bronca de pai, chinelo de mãe.

Só isso para explicar tanta raiva, tanto preconceito, tanta ignorância.

Vou lhe dizer uma coisa, meu amigo: tudo isso lhe faltou. Mas não foram nem os gays, nem os negros, nem os sírios ou mulheres ou pobres ou mexicanos que tiraram isso de você, viu?

Você está atirando pedras nas pessoas erradas.

Obrigado.

De nada.

Por Que Tanto Ódio, Meu Jovem?

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