Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Vinterberg atualiza o Dogma 95 e traz o humor à sua filmografia com “Druk – Mais uma rodada”

O que fazer para ajudar um amigo desmotivado com a profissão e o casamento? Três colegas de trabalho, professores como ele, sugerem uma terapia que vai motivar não só o entediado Martin (Mad Mikkelsen), mas todo o grupo. Para isso, vão buscar uma base científica na tese do psicoterapeuta e filósofo Finn Skarderud, a de que todos nós nascemos com uma taxa de 0,05% de álcool no sangue e que é preciso mantê-la para conservarmos nosso bem-estar. Esse é o tema do mais recente filme de Thomas Vinterberg:

DRUK

 (2020, 1h57), que, depois da estreia em março passado, em poucas salas de cinema no Brasil, pode ser visto em plataformas on line, entre elas YouTube e Google Play Films.

O cinema contemporâneo dinamarquês ganhou força e repercussão mundial com diretores como Lars Von Trier e Thomass Vinterberg, a partir do anúncio do Dogma 95, como ficou conhecido o manifesto publicado no ano de 1995. Redigido pelos dois cineastas, preconizava um retorno às origens do cinema, época em que os diretores tinham total controle sobre suas obras. O manifesto defendia o não-alinhamento com o tipo de produção industrial praticado, sobretudo, pelo cinema hollywoodiano de orçamentos exorbitantes e de grandes estúdios controlando todas as etapas da criação.

Druk, en film af Thomas Vinterberg

Lançado no ano comemorativo do centenário do cinema, o Manifesto Dogma 95, apresentava dez mandamentos (éticos, técnicos e estéticos) que os cineastas deveriam adotar em suas obras para se alinharem ao movimento. Em linhas gerais, defendia um cinema com narrativa e estética mais realistas e menos atrelado aos ditames mercadológicos, com filmes sendo mais atrativos pela história narrada e o trabalho dos atores do que por artifícios outros.  

O Dogma 95 recomendava, então, evitar estúdios e filmar apenas em locações, e só usar objetos de cena já existentes previamente no local (um exagero, claro), mas essas esquisitices não ficam só por aqui. Na trilha sonora, somente músicas diegéticas, ou seja, tocadas no set durante as filmagens. O movimento ganhou adesão de diretores em diversas partes do mundo. Essas regras draconianas, no entanto, foram, desrespeitadas pelos próprios autores do manifesto, obviamente. 

O primeiro filme realizado pós-manifesto foi Festa de Família, em 1998, do próprio Thomas Vinterberg, num contexto de estímulo do governo dinamarquês a filmes de baixo orçamento. Este é o primeiro de nove longas-metragens do diretor, que pôde exercitar aqui os mandamentos estabelecidos pelo manifesto que ajudou a criar. O filme causou enorme impacto na crítica e público pela virulência da abordagem de temas indigestos que vêm à tona numa confraternização familiar.  Vinterberg voltaria a um desses temas, desta vez, de forma mais violenta e assustadora em A Caça (2012): a pedofilia e a paranoia que dela resulta. Como em Druk – Mais uma rodada, A Caça traz como intérprete do protagonista (Lucas) o ator Mad Mikkelsen em excelente atuação.

Leve ma non troppo, Druk – Mais uma rodada aborda o alcoolismo sem julgamentos morais. Os quatro amigos Martin (Mad Mikkelsen), Tommy (Thomas Bo Larsen), Nikolaj (Magnus Millang) e Pete (Lars Ranthe) são professores de uma escola de ensino médio num momento em que seus estudantes vivem a tensão dos exames preparatórios para a universidade. Martin já não empolga seus alunos com suas aulas de História, e nem à sua família, a mulher Anika (Maria Bonnevie) e seus dois filhos. Recebe da diretoria uma reprimenda em reunião de pais e alunos e promete reverter a situação. Como vimos, Martin e seus colegas vão buscar no álcool a solução para o problema. 

Da teoria à prática, o quarteto de professores entra de cabeça na experiência de manter os 0,05% de álcool que o organismo “precisa”. Nikolaj é o responsável de registrar em relatório o experimento. Saindo da ficção, é importante lembrar que uma pesquisa na Grã-Bretanha sugere que o álcool, consumido com moderação, tem seus benefícios para a nossa capacidade cognitiva e bem-estar psicológico, promovendo o estreitamento dos laços sociais. Contudo, Skarderud, coordenador do projeto de pesquisa em Psicoterapia do Hospital Universitário de Oslo, já declarou que sua tese dos 0,05% é de difícil comprovação.

DRUK

Martin e os demais vão sentir essas transformações em suas atividades diárias, melhorando suas performances em sala de aula, a reconciliação com a família, no caso de Martin; e nos treinos de futebol com as crianças, no caso de Tommy. Mas nem tudo serão flores. As consequências negativas do excesso de consumo de álcool afetarão a todos. Neste filme, 26 anos depois, Vinterberg ainda segue na sua mise-en-scène alguns mandamentos do Dogma 95, como o uso constante de câmera na mão e do recurso exclusivo à iluminação ambiente – facilitados pela miniaturização dos equipamentos e sua capacidade de registro de imagens em situação de pouca luz, sem torná-las excessivamente granuladas e chapadas. O uso recomendado pelo manifesto no mandamento nove, a de que o formato do filme teria de ser 35mm, deve ter caducado. A fotografia de Druk é assinada por Sturla Brandth Grøvlen.

Com um ótimo roteiro a quatro mãos (Vinterberg e Tobias Lindholm), uma excelente performance dos atores e uma montagem (Janus Billeskov Jansen e Anne Østerud) imprimindo um ritmo que não nos deixa perceber as quase duas horas de filme, Vinterberg demonstra a segurança de um bom narrador. Druk – Mais uma rodada o consagra como um dos grandes diretores da atualidade. O filme recebeu os três mais importantes prêmios do cinema mundial: o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (2021), o Cesar de Melhor Filme estrangeiro (2021) e o Globo de Ouro, entre uma dezena de prêmios mundo afora.  A terra de Carl Dreyer (1889-1968), o maior cineasta dinamarquês, agradece.

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