Carlos Ruiz

Carlos Enrique Ruiz Ferreira é mestre e doutor pelo Departamento de Ciência Política da USP; pós doutor pelo Departamento de Filosofia da USP; professor doutor associado de Relações Internacionais da UEPB. Atualmente é coordenador geral do Centro de Estudos Avançados em Políticas Públicas e Governança, conselheiro do Conselho Estadual de Educação da Paraíba e coordenador-adjunto do curso de Relações Internacionais da UEPB


Governo do Estado: a Chapa por Lula

“Não adianta dizer: ‘Estamos fazendo o melhor que podemos’. Temos que conseguir o que quer que seja necessário” Winston Churchill

Há duas teses da conjuntura política brasileira que devem pautar as atitudes e as forças políticas progressistas da Paraíba. A comprovação destas teses nos fornece um diagnóstico preciso que deve orientar o agir político, desde, obviamente, uma perspectiva racional e madura. Cuide-se: a racionalidade deve vir acompanhada de uma maturidade política, elemento que cobra um valor extremo tendo em vista os grandes desafios existentes no país e, doravante, na Paraíba.

Vamos ao tema. A primeira hipótese é que estamos vivendo sob um governo que transcende a lógica política convencional da “direita” e “esquerda”. Esta dicotomia, típica das democracias contemporâneas, foi substituída por outra no Brasil: entre a “civilização” ou “barbárie”.

Quando temos um presidente que representa as forças antidemocráticas e anticonstitucionais, a velha dicotomia pautada por uma distinta visão sobre o que fazer com as desigualdades (Ver N. Bobbio, “Direita e Esquerda. Razões e Significados de uma Distinção Política”) é substituída pela dicotomia que repousa sobre qual o valor da vida humana e dos direitos mais básicos das pessoas. Não se cuida mais, apenas, sobre a distribuição de renda, pleno emprego e papel do Estado na economia, por exemplo. Estamos a tratar da possibilidade de um extermínio (por ativismo e/ou negligência) de parcelas da população brasileira. Estamos a tratar de um genocídio em curso, de que vidas são descartáveis.

A segunda tese é que, embora representante de ideias coloniais, racistas, patriarcais, machistas, antidemocráticas, o presidente da República possui ainda uma base eleitoral de significativa envergadura. [Este tema precisa ser mais estudado e compreendido, pois diz respeito as raízes sociopolíticas da violência no Brasil]. Ainda, precisamos considerar o peso da “máquina”, para uma possível reeleição. Neste sentido, esta tese se conclui com a compreensão de que Bolsonaro tem chances de se reeleger, em que pese sua perda de popularidade recente.

Uma vez de acordo com estas duas teses preliminares, temos, portanto, um diagnóstico extremamente preocupante para a conjuntura política nacional: a possibilidade de reeleição de um político comprometido, ao que tudo indica, com o genocídio e desrespeitoso com a Constituição e seus valores democráticos, de independência dos poderes, dentre outros.

E a Paraíba? O que tem a ver com isso?

Nos últimos dois mandatos estaduais e no atual, a Paraíba vem experimentando um fortalecimento das forças e partidos de esquerda e/ou progressistas. Tendo em vista a definição de Bobbio, de que a ideologia de esquerda demonstra uma preocupação e um compromisso com o combate das assimetrias e desigualdades, sejam elas de origem social, renda, de gênero, raça e outras, os mandatos do Poder Executivo, os Governo de Ricardo Coutinho e João Azevedo, cumpriram seu papel. Em que pese as peculiaridades das alianças políticas – que se explicam por múltiplos fatores –, são governos que, podemos considerar, compromissados com o desenvolvimento e o combate às desigualdades históricas da sociedade paraibana. Não podemos esquecer que estes governos formularam políticas e empreenderam ações que desafiaram a lógica hegemônica no Estado, em que o familismo, coronelismo e os interesses das grandes elites, predominavam sobremaneira, em prejuízo dos menos favorecidos.

Pelas teias inevitáveis das Moiras, as irmãs que tecem o Destino (de deuses e seres humanos), essa importante força e bloco progressista, que surgiu na história recente paraibana, se fragmentou, desuniu. Mas, penso com meus botões, é chegada a hora dos líderes repensarem os traumas e as rupturas causadas.

A sensibilidade política das forças progressistas deve ser orientada pelo maior desafio que temos pela frente: derrotar Bolsonaro. E quando falamos de derrotar Bolsonaro, temos que imediatamente dizer: eleger Lula. Pois não há candidato com melhores condições de ganhar as próximas eleições presidenciais do que Lula. Ele sintetiza as três mais importantes qualidades e virtudes na conjuntura atual: o candidato com a melhor experiência exitosa administrativa e política, com o mais alto carisma e, com a mais alta popularidade e densidade eleitoral.

Recai, portanto, sobre as lideranças e partidos políticos de esquerda, e de centro-esquerda, da Paraíba (e do país) uma responsabilidade de magnitude nunca vista na recente história brasileira. Os mais altos interesses nacionais, democráticos e republicanos, estão em pauta. Encarar com o devido rigor esta conjuntura política é fundamental para o futuro do povo paraibano e brasileiro.

É chegada a hora de uma profunda reflexão e ações contundentes por parte das lideranças políticas paraibanas. Os traumas passados e recentes precisam ser superados. E, caso não se encontre o caminho da concórdia, que pelo menos tenhamos a maturidade de encontrar o caminho de alianças pragmáticas, reunindo as forças democráticas em torno de um Projeto comum. Tertius non datur, precisamos de um projeto de defesa da vida e da democracia, em que a fome não seja o lugar comum e que a vida humana volte a ser um valor inalienável. Tirar o Brasil deste colapso moral, econômico, social e sanitário, é a grande responsabilidade e o maior de todos os desafios e a Paraíba há de honrá-lo.

Uma chapa por Lula e pela Democracia na Paraíba passaria por atores que deveriam caminhar juntos: João Azevedo, Ana Cláudia, Veneziano e Ricardo Coutinho.

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