Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


A mais intrigante história de amor portuguesa na versão cinematográfica ‘ Pedro e Inês’

A história de amor mais conhecida do mundo tem origem na peça teatral ‘Romeu e Julieta’. A diferença entre a obra dramatúrgica de William Shakespeare e o lendário drama de Pedro e Inês é que seus protagonistas existiram de verdade no século XIV, em Coimbra, Portugal. Inês de Castro foi coroada rainha depois de morta pelo herdeiro do trono português Pedro I. Esta é a cena mais impressionante do filme ‘Pedro e Inês’ (2018, 120min), uma coprodução de Portugal, França e Brasil dirigida pelo cineasta português António Ferreira que estreou no Brasil essa semana em salas de cinema e plataformas de streaming com distribuição da Pandora Filmes.

Realidade histórica ou lenda? Não importa. O drama de Inês e Pedro nos comove pela universalidade do tema: o amor trágico e a impossibilidade de sua concretização. O infante Pedro, filho do rei Dom Afonso IV, é destinado a um casamento por procuração com Dona Constança da Espanha, que se muda para Portugal e traz em sua comitiva, como dama de honra, a bela Inês de Castro, também de linhagem nobre e prima de Pedro.  Os dois se apaixonam irremediavelmente. Inês é punida com o exílio. Constança morre ao dar à luz a filha Maria. Pedro e Inês se casam secretamente. Com medo de que a família Castro viesse a ser influente na Coroa Portuguesa, Dom Afonso ordena o assassinato de Inês. Daí o dito popular, a “Inês é morta” para algo sem remédio. 

Esse enredo real, com datas e fatos reconhecidamente históricos, terminou por contaminar o imaginário popular, sobretudo por ter impregnado a poesia de Luís Camões duzentos anos depois e a literatura. ‘A trança de Inês’ da escritora, poeta e atriz Rosa Lobato de Faria, romance publicado em 2001, antes de sua morte aos 77 anos, inspirou o filme de António Ferreira. O diretor narra, como no romance, esse enredo em três épocas e contextos distintos: o da Portugal medieval, época dos acontecimentos históricos, o de um Portugal contemporâneo e um de um tempo futuro e distópico. As três histórias, com os protagonistas Pedro (Diogo Amaral, em excelente performance), Inês (Joana de Verona) e Constança (Vera de Kolodzig) se entrecruzam pelo artifício da montagem numa narrativa intrigante.

Há décadas, o cinema tem cada vez mais buscado na literatura boas histórias para o enredo de seus filmes. O roteirista argentino Miguel Machalski especula que isso deve à suposta escassez de histórias originais e à “garantia” de que uma obra literária pode oferecer.  A adaptação traz mais riscos do que garantias, visto que os dois meios possuem especificidades quase intransponíveis de uma mídia para outra. Essa intermidialidade não acontece sem prejuízos. António Ferreira busca ser fiel, dentro dos limites que uma adaptação impõe, ao romance de Rosa Lobato, com três narrativas que mesclam memória, reencarnação e delírios do personagem Pedro, interno para tratamento psiquiátrico na história atual. 

No Portugal hodierno, Pedro é um arquiteto casado que se apaixona pela nova funcionária do ateliê, Inês. Aqui é o ciúme doentio de Constança, mulher de Pedro, inconformada com a separação, que detonará a tragédia. Na história ambientada no período histórico, aproximadamente entre 1336 e 1360, o assassinato de Inês leva Pedro, já aclamado rei de Portugal, a uma vingança implacável contra os algozes da amada.  Esta e a cena da coroação da rainha morta, retirada da tumba por Pedro e levada ao trono, onde os súditos e nobres são obrigados a beijar sua mão pútrida, constituem dois momentos impactantes do filme. 

Se numa narração literária, o leitor tem o domínio dos parâmetros temporais e espaciais do livro, diz Machalski, num filme, o espectador é prisioneiro do tempo e do espaço impostos por sua narrativa. Mas em ‘Pedro e Inês’, o diretor usa os mesmos artifícios de idas e vindas para narrar as histórias da três épocas, intercalando-as habilmente e com uma fluência que chegamos a esquecer os limites temporais de cada uma dessas histórias. No contexto da narrativa que se passa num futuro próximo não definido, Pedro e Inês são integrantes de uma comunidade distópica regida por regras draconianas, o que os levará ao trágico desfecho. Inês e Pedro estão, assim, presos a um fatídico destino, não importando a época em que busquem viver o seu inexorável amor. Um amor que nem a morte e o tempo poderão destruir.

‘Pedro e Inês’ foi o filme mais visto em Portugal no ano do seu lançamento. O cineasta e roteirista António Ferreira mostrou para o que veio com seu média-metragem ‘Respirar debaixo d’água’ (2000) que o levou a Cannes e a colecionar prêmios. Em seguida vieram os longas ‘Esquece tudo o que te disse’ (2002) e ‘Embargo’ (2010), este último uma adaptação do conto homônimo de José Saramago. Neste ínterim, em 2007, estreia o curta-metragem ‘Deus Não Quis’, arrebatando mais de uma dezena de prêmios. Com ‘Pedro e Inês’, estreia no festival de Montreal, o diretor circulou em mais de vinte festivais pelo mundo até 2020 (no Brasil esteve na Mostra Internacional de São Paulo e no Festival do Rio), tornando-se um dos cineastas mais premiados do cinema português da atualidade. 

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