David Soares

David Soares de Souza é sociólogo formado pela UFPB, mestre e doutorando em Ciências Sociais pela UFRN. Atualmente é professor na UEPB.


TV: T de Temer e V de Vingança

O medo, além de audiência, dá votos. A série de quadrinhos V de Vingança, criada por Alan Moore e ilustrada por David Lloyd, conta a história de um Reino Unido pós-apocalíptico, com regime totalitário tendo o medo como única forma de legitimação. O filme com mesmo nome e baseado na série, foi dirigido por James McTeigue, com Natalie Portman e Hugo Weaving, e realça a percepção de como poderes constituídos se sustentam pela gestão do medo, provocando a apatia da população com o apoio promiscuo da mídia, que passa a ser ferramenta fundamental de dominação.

A intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro é, claramente, uma ação política do governo federal tentando “sair das cordas” na opinião pública. O Exército já atuou diversas vezes na segurança pública fluminense, como a ocupação do Complexo do Alemão em 2007 e 2010 e atual Garantia da Lei da Ordem (GLO) que está em vigor desde setembro de 2017, nunca com resultados satisfatórios. Porém, o Carnaval disse “o rei está nu” e o governo e seus apoiadores (conscientes e inconscientes) se tornaram piadas nos festejos de Momo. A solução foi tentar vesti-lo com fardamento rajado Exército. O governo não quer resolver o problema da segurança pública, ao contrário, quer que o medo se prolongue.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2017, o Rio de Janeiro não está nem mesmo entre as 30 cidades mais violentas do Brasil, considerando o número de ocorrência proporcional à população. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, não houve uma explosão de violência em 2018. Foram 5.865 ocorrências no Carnaval desde ano contra 9.016 em 2016. Por que este ano houve intervenção enquanto que há dois anos não houve nem sequer clamor algum por segurança? Segundo a escola de samba Paraíso do Tuiuti, é porque há dois anos a pauta para mobilizar os “manifestoches” era a corrupção.

E o que a pauta da segurança nos diz? De fato, a violência no Brasil mata mais que a Guerra na Síria. Entre 2001 e 2015 o número de assassinatos em nosso país é o equivalente a toda população de João Pessoa. No entanto, 70% das mortes atingem jovens, negros, pobres e foram provocadas por armas de fogo.

Além de matar muito, também prendemos muito. Segundo informações do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), em 2017, a nossa população carcerária é de 726.712 pessoas, das quais 64% são jovens, pobres e negros. Um detalhe adicional: 40% são presos provisórios, e ainda não foram julgados e condenados.

Nem o Rio de Janeiro, ou nenhuma outra cidade do país, produz drogas e armas, mas, por que não há nenhuma força tarefa para sanar a entrada destes produtos por nossas fronteiras? Quando você lembrar que um helicóptero com 445kg de pasta base de cocaína, carga avaliada em R$ 50 milhões, foi pego e os donos deste carregamento nunca foram importunados, começará a entender.

O Exército tem treinamento de Guerra, o que significa eliminar o inimigo, por isso mesmo, não pode ser alocado para segurança pública e passar a ver seus cidadãos como alvos. Mas, ao promover um espetáculo midiático com tropas na rua, a população não discute as causas da insegurança, do desemprego, as péssimas condições dos serviços públicos e, de lambuja, o presidente tentar ganhar alguma popularidade.

O que gera a sensação de insegurança é o aumento dos crimes contra o patrimônio, diretamente vinculado ao desemprego recorde provocado pela política de arrocho fiscal. Aliás, se precisamos de mais educação, mais saúde e mais segurança, é bom lembrar que este governo que promove a intervenção midiática, congelou investimentos públicos por 20 anos.

Os países do mundo com índices admiráveis de segurança pública são aqueles que entenderam que não há solução mágica ou salvador da pátria. A Colômbia, nossa vizinha, reduziu 85% dos índices de homicídios em 15 anos. A fórmula utilizada: educação de qualidade em tempo integral, política de cultura, lazer e esportes para a juventude, geração de emprego e renda para famílias em situação de vulnerabilidade social, abordagem das drogas pelo viés da saúde pública, requalificação dos espaços públicos como praças, parques, iluminação pública, etc. Os números só não foram melhores porque há uma guerrilha acontecendo naquele país.

A direita brasileira se divide em pelo menos dois blocos: de um lado a direita liberal representada pelo governo Temer, o MDB, PSDB e seus satélites, que defendem as políticas neoliberais derrotadas nas urnas em 2014 e que estão sendo implementadas agora sem o respaldo popular. De outro lado, a extrema-direita de Jair Bolsonaro com ideias(sic) pré-civilização, mas, que cresce se apresentando como outsider, ou seja, cresce com o desgaste da política gerado pelo mesmo movimento que viabilizou o governo Temer.

Mesmo após a intervenção militar no Rio de Janeiro, apenas 4,3% da população aprova o governo de Michel Temer, segundo pesquisa do CNT/MDA. A direta liberal não tem nome competitivo para 2018 e a agenda que apresentam para a sociedade jamais seria aprovada pelas urnas. A extrema direita ganhou um nome competitivo, mas, como puro efeito colateral do antipetismo que a direita liberal mobilizou. Na rima difícil entre direita e democracia, o que restou foi tentar um bolsonarismo sem Bolsonaro (que, sintomaticamente, criticou a intervenção). Mas, se a direita liberal não tem votos, tem o apoio da grande imprensa e do grande capital, e para quem não aprecia a democracia isto é melhor do que votos.

O ministro Raul Jungmann, único nome fortalecido no governo ao assumir o Ministério Extraordinário da Segurança Pública, já afirmou que com a presença do Exército no Rio de Janeiro, traficantes cariocas podem migrar para outros estados. Afinal, ou bem as Forças Armadas não conseguem identificar e deter os referidos traficantes e, desta forma, a intervenção é obsoleta, ou bem já está se preparando um pretexto para levar a intervenção para outros estados para caso Neymar não quebre mais um dedinho até a Copa do Mundo chegar.

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