Allysson Teotonio

Jornalista, publicitário e fotógrafo


Perdão, presidente

Eu errei, errei feio. Perdão, presidente. A culpa é minha, que não acreditei na sua capacidade. O senhor salvou o nosso país das garras do comunismo e hoje somos uma nação muito melhor. Conservadora, liberal, sem igual.

Nunca tinha visto meus compatriotas tão felizes, tão unidos, tão solidários, como agora. Finalmente, somos uma só nação, graças ao senhor. De norte a sul.
A economia nunca esteve tão azeitada, equilibrada e próspera. Estão sobrando vagas no mercado de trabalho. Não é o dólar nas alturas que impede as domésticas de irem para a Disney, é a pandemia do novo Coronavírus, que fechou o acesso aos Estados Unidos.
A classe média está rindo à toa, está folgada como nunca esteve. Amigos fazem depósitos de 89 mil reais em nossa conta ou na conta de nossas esposas sem a gente nem pedir. Até cédulas de 200 reais nós ganhamos. Alguns, mais criativos, em vez de guardá-las embaixo do colchão, guardam nas nádegas.
A corrupção acabou. É um novo país.
A saúde está firme e forte, como o senhor, que tem um histórico de atleta. Para que serve um sistema público, se todos podem pagar planos de saúde, né mesmo? A gripezinha que assusta o mundo já foi embora do Brasil, graças ao senhor, né? Nem de vacina vamos precisar. Vamos economizar dinheiro para descobrir a cura, caso a gripezinha volte a nos incomodar. Os 159 mil mortos, com certeza, ela não mais irá incomodar.
A segurança também está sob controle. As crianças largaram o celular e voltaram a brincar na rua. Elas até deixam a bicicleta na porta de casa e ninguém a leva. Os bandidos bons estão mortos. Está faltando apenas eliminar os bandidos ruins, né? Mas isso é um detalhe irrelevante. Eu nem deveria ter tocado nesse assunto. Desculpe-me, presidente.
A educação agora é nota 10. As escolas e as universidades públicas estão com recursos suficientes, disciplina tipo militar, a moral e os bons costumes em alta, alunos e professores satisfeitos. A balbúrdia acabou.
Não há fogo na floresta, é o churrasco da galera. O povo está comprando picanha à vontade. Na selva, na favela, no palácio, nos condomínios. Desigualdade social é coisa do passado ou manipulação da imprensa globalista-comunista.
O senhor é mesmo um mito. Perdão por eu ter me enganado. O senhor não existe, presidente! Um país como o nosso não existe em nenhum lugar do mundo. Muito obrigado, presidente.
Happy Halloween!

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