Opinião: Por que o dia 8 de março é importante para as mulheres? 

Em um texto publicado neste domingo, 7, Iasmin Soares (produtora de conteúdo para as redes sociais, ativista, feminista interseccional, estudante de jornalismo e pesquisadora de afetividade e sexualidade de mulheres negras) aborda a importância do Dia Internacional da Mulher, sua origem e questionamentos e ressalta a necessidade de assegurar direitos e continuar a busca por condições de vida mais dignas para todas, especialmente as que tradicionalmente são excluídas da agenda do feminismo liberal: negras, indígenas, trans e travestis, pobres ou com deficiência.

Confira a íntegra do artigo de Iasmin Soares

Por que o dia 8 de março é importante para as mulheres? 

Iasmin Soares

Na escola nos ensinam que o dia oito de março é em memória às mulheres que foram vítimas de um incêndio no ano de 1857 na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Mas esse fato não passa de uma fake news. O que os historiadores relatam é que de fato aconteceu um incêndio que vitimou homens e mulheres, entretanto, foi em 1911, em Nova Iorque. O dia internacional das mulheres foi criado pela Organização das Nações Unidas apenas em 1970 reconhecendo a luta das mulheres por uma sociedade mais equânime entre homens e mulheres.

Como tudo começou

Para entender como chegamos em 2021 com os direitos que nós mulheres conquistamos, precisamos revisitar o passado. No final do século XIX e começo do século XX, surgiram nos Estados Unidos e no Reino Unido protestos e reivindicações de mulheres, em sua maioria brancas e de classe média/alta, que queriam inicialmente a igualdade jurídica, direito ao voto, acesso à escola e universidade, e o exercício de profissões que ‘não eram para as mulheres’ naquela época.

No início do século XX, as mulheres do Reino Unido começaram um movimento chamado “As sufragistas”, o qual focava na conquista do voto para as mulheres. E em em 1918,  elas conseguiram o direito ao voto, mas só para as mulheres acima de 30 anos de idade e que possuíssem alguma propriedade. Em 1928, o direito foi estendido a todas as mulheres acima de 21 anos.

Nos Estados Unidos, o movimento das sufragistas conseguiu a aprovação, em 1919. Aqui no Brasil, as mulheres também se uniram para conquistar o voto feminino, e o nosso país foi o primeiro da América latina a conceder esse direito para as mulheres no ano de 1932.

A luta continuou, as mulheres perceberam que eram mais fortes juntas e criaram grupos feministas para discutir as estratégias para conquista de mais e mais direitos. Por volta dos anos 60 e 70, as lutas feministas começaram a ficar mais fortes, os debates sobre violência de gênero, liberdade sexual, direito ao trabalho e diversos outros temas que permitiram a emancipação feminina. A imagem simbólica da queima de sutiãs em praça pública é a representação desse período.

Mulheres que não eram pautadas em todas essas manifestações começaram a se unir. Estou falando das mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres trans e travestis, mulheres pobres, mulheres com deficiência, enfim, mulheres que em sua maioria eram excluídas da agenda do feminismo liberal. E nos Estados Unidos debates que fugiam da lógica liberal se tornaram muito presentes, com figuras como Angela Davis falando sobre como o feminismo pode ser racista e classista, por exemplo.

Panorama da luta feminista no Brasil

Aqui no Brasil, mulheres como Lélia Gonzalez discutiam as perspectivas de latinoamericanas e não brancas, os direitos que eram negados, as violações realizadas pelo Estado brasileiro. Mulheres que desafiaram a ditadura militar vigente nessa época e que não se deixaram calar conquistaram direitos que hoje podemos usufruir.

Por volta da década de 70 e 80 mulheres indígenas também começam a se conectar aqui no Brasil, formando o que hoje conhecemos como feminismo indígena. Elas começaram a ter voz e falar sobre as consequências do machismo e patriarcado dentro das suas comunidades, e também fora delas.

Os protestos permaneceram. Mulheres unidas exigiram que os seus direitos fossem criados e protegidos. Mas foi só em 2006 que a lei Maria da Penha começou a valer. A lei pune quem comete algum tipo de violência contra as mulheres, seja ela física, moral, patrimonial, psicológica ou sexual. Já em 2015, a lei do feminicídio foi promulgada. De acordo com a lei 13104, é feminicídio todo homicídio contra a mulher por razões da condição de sexo feminino.

A luta perdura diariamente. Nós mulheres somos responsáveis pelo futuro das futuras gerações, precisamos nos unir e prestar bem atenção em TODAS as mulheres, para que ninguém fique de fora das nossas reivindicações. Ainda estamos longe de conquistar um mundo digno para que possamos viver bem e, por isso precisamos adotar uma lógica interseccional e superar outros fatores que nos impedem de continuar nossos avanços. Precisamos, por exemplo, acabar com a fome, pobreza e o capitalismo, para que as mulheres possam ter uma vida digna.
A luta continua, companheiras, e não acaba esse ano. Todo oito de março é dia de reflexão para lembrar o que as mulheres que vieram antes de nós já fizeram  e o que precisamos fazer daqui para frente.

4 comentários

  • Severina do Ramos da Costa Santos
    12:03

    Parabéns Iasmin👏👏👏👏👏 Ótimo texto, mais uma vez trazendo temas relevantes e atuais, que são marcantes na sociedade .

  • Sofia
    12:03

    Incrível!! Obrigada pelo texto maravilhoso!

  • Manuelle Albino
    12:03

    Ótimo texto, Iasmin! Que a gente consiga cada vez mais promover uma luta coletiva de emancipação para todas as mulheres!

  • Cid Cordeiro
    12:03

    Agora entendi e de fato faz mais sentido.
    Foram e são histórias de lutas, desafios e vitórias.
    O texto me provocou uma curiosidade e ainda maior!

Comentários

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