Leonardo Dantas

Servidor público por precisão, jurista por formação e educador por paixão. É pós-graduado em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas pela UFPB. Contato: leonardodantas09@gmail.com


O democrata de esquerda

Essa semana assisti, pela TV Assembleia do nosso estado, a uma palestra do renomado professor e pesquisador Jessé Souza, em evento promovido na Universidade Federal da Paraíba. Intelectual de currículo vasto e declaradamente de esquerda, é autor do recente livro “a radiografia do golpe – entenda como e por que você foi enganado” (editora Leya Casa da Palavra). O título da obra demonstra muito do que pude perceber na sua apresentação: um homem de personalidade forte, combativo, com discurso enérgico e persuasivo, rigidamente convicto de suas posições e análises.

Ao final do discurso, abriu-se para as perguntas do público, cujas intervenções não passaram de elogios (louváveis) e reforço do que havia sido explanado. Exceto uma, que me chamou atenção e inspirou este singelo artigo. Alguém decidiu fazer críticas: o renomado professor e pesquisador Rubens Pinto Lyra, intelectual de currículo vasto, declaradamente de esquerda e autor do recente livro “jornalismo e cidadania – reflexões sobre a atualidade política” (editora da Universidade Estadual da Paraíba).

Iniciou sua participação ressaltando a importância do debate, numa postura meio que se desculpando ou se justificando para os presentes. Refletiu que no encontro foram feitas muitas críticas importantes e pertinentes – ao sistema político, econômico, à direita -, mas não se via autocrítica (da esquerda). Que achava isso também importante, especialmente no ambiente acadêmico. Durante sua intervenção, utilizou-se, por mais de uma vez, da expressão: “nós, democratas de esquerda”, pedindo ao orador que falasse sobre os graves eventos de corrupção protagonizados pelo governo do PT, e sobre experiências autoritárias de esquerda na América Latina, a exemplo do presidente Maduro, na Venezuela…

Em que pese o desconforto gerado no ambiente e o não enfrentamento, claro e objetivo, dessas questões pelo convidado, deixo aqui algumas reflexões sobre “o democrata de esquerda”, que martelou o meu juízo desde então.

O democrata de esquerda é de esquerda, porque entende que o sistema econômico (capitalista), por si só, favorece o injusto aumento da desigualdade social entre as pessoas;

O democrata de esquerda é de esquerda, porque não se conforma com a naturalização da miséria e da pobreza, existentes;

O democrata de esquerda é de esquerda, porque vê a necessidade de uma maior intervenção do Estado, em socorro ao menos favorecidos;

O democrata de esquerda é de esquerda, porque para ele a realidade social é mais importante do que os números da economia;

O democrata de esquerda é de esquerda, porque acha que o interesse social deve prevalecer sobre o interesse individual;

O democrata de esquerda é democrata, porque defende que, mesmo com todas as críticas que possamos fazer, a vontade da maioria deve prevalecer sobre a da minoria;

O democrata de esquerda é democrata, porque também defende que a minoria deve ser protegida e respeitada, e não oprimida pela maioria;

O democrata de esquerda é democrata, porque enxerga o valor e a importância do contraditório e da oposição, em qualquer sistema jurídico e político;

O democrata de esquerda é democrata, porque entende que nenhum dos poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – deve ser muito forte ou muito fraco, porém sempre independentes;

O democrata de esquerda é democrata, porque para ele o respeito às leis e decisões judiciais são inegociáveis, na política ou na economia, pelo partido ou pela empresa, para o político ou para o empresário.

O democrata de esquerda

2 comentários

  • Vinícius
    16:12

    Perfeito!!!!

  • Maria de Lourdes Henrique
    16:12

    Como sempre o salutar debate a substituir lagartixas tomando sol e balançando as cabeças sem se importar com mais nada. A pasmaceira dos que se negam ao contraditório permite a continuidade de crenças válidas ou não sob o prisma da atualidade. Bom lembrar que a história está repleta de ídolos com os pés dr barro. Enxergar falhas no que cultuamos pode ser o melhor caminho para mudanças de paradigmas. Parabéns Leonardo pela coragem de refletir. Parabéns professor pela capacidade da crítica consrutiva.

Comentários

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