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Júlia Maranhão: na Paraíba, artesanato e educação impulsionam empreendedorismo que liberta

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Cláudia Carvalho
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Imagine-se dentro de uma cela, atrás das grades, dividindo o espaço com outras pessoas que você nunca viu na vida. Mas, isso não é um pesadelo e nem um castigo de fim de semana. Essa será sua realidade por anos a fio. Vendo o sol nascer quadrado, sem a presença da família, sem os sonhos da juventude ou a tranquilidade que a maturidade oferece a quem está livre… uma vida interrompida por uma sentença. Um erro momentâneo, um rompante que lhe custou muito caro. Um preço exorbitante que não pode ser mensurado. Apenas sentido. Ressentido.

Esse poderia ser o resumo de muitas histórias da Casa de Recuperação Feminina Maria Júlia Maranhão, localizada em Mangabeira, bairro populoso de João Pessoa, capital da Paraíba. São vidas que aprenderam da pior maneira a dimensão da disparidade entre o pensamento de Jean Jacques Rousseau e a realidade. O filósofo francês defendia a igualdade total entre todos os homens como ponto fundamental de uma boa sociedade. Também acreditava que todos deveriam ser tratados da mesma maneira, tanto política quanto socialmente.

A utopia encontra um ponto convergente com os dramas reais em um castelo. Nele, habitam princesas cuja semelhança com os contos de fadas está apenas no capítulo dramático. Elas sofreram. Fizeram sofrer. Mas, o final feliz não chegaria sem um empurrãozinho. E esse estímulo simplório viria de algo igualmente prosaico: bonecas de pano, artesanato, feito com tudo que mais à mão se oferece. Retalhos, linha, agulha e um acervo que se encontraria em qualquer armarinho ou loja de aviamentos, como se dizia antigamente.

Mas, o passado não pode mais ser mudado. É com o esforço do presente que essas moças precisam olhar para o futuro sem medo. E isso elas aprenderam no Castelo de Bonecas, uma ideia que surgiu em 2012, mesmo ano em que a atual diretora Cínthya Almeida chegou ao Júlia Maranhão. “Todas chegaram de uma mesma maneira. Queriam remir a pena. Para cada três dias trabalhados, um dia de pena é reduzido. Isso é unânime. Mas, o mais bacana é ver que muitas não tinham visita nem contato com a família ou filhos, mas depois que passam a trabalhar, produzir, ganhar um dinheirinho, elas reconquistam a autoestima, a família, começam a reconstruir seus vínculos que estavam cortados. Elas começam a caminhar aqui dentro para essa vida lá fora. Elas realmente recomeçam”.

*infográfico: Gerson Souza

O trabalho rende frutos. Torna possível reinventar uma realidade financeira vulnerável e, por vezes, desesperadora. “Há alguns casos de pessoas que começaram a trabalhar aqui e o que receberam das vendas serviu para que recomeçassem quando saíram. Temos exemplos de mulheres que hoje complementam a renda ou vivem da fabricação de bonecas, enxovais de bebê. Às vezes me pedem indicação de alguém daqui para fazer um enxoval. O empreendedorismo realmente é uma ferramenta de transformação social. Ninguém muda ou tem dignidade sem trabalho”, comentou a diretora Cinthya Almeida.

Agripina

Foi a busca por resgatar a dignidade que fez com que Agripina (nome fictício), 36 anos, enveredasse por um pequeno negócio ao sair da penitenciária em agosto de 2023. “O Castelo de Bonecas me ensinou muito sobre costura. E sobre criar com o que se tem, que não precisamos de um alto investimento pra conseguir fazer algo bonito e bom. Com toda certeza o preconceito hoje é algo muito forte. E encontrar uma empresa ou alguém que dê oportunidade a quem sai do sistema prisional é como achar uma agulha no palheiro. Aqui na Paraíba, graças a Deus, temos a oportunidade dada pelo Governo do Estado, que nos prepara para o mercado de trabalho em uma nova posição”, explicou.

O “Castelo” foi um divisor de águas na vida da empreendedora: “Eu cheguei sem saber fazer nada, mas aprendi tudo que me foi ensinado. O Castelo de Bonecas foi a maior experiência que já vivi na minha vida. Apesar do lugar, foram dias de crescimento pessoal e profissional. Aprendi a conviver com pessoas de realidades totalmente diferentes da minha, descobri que eu era capaz de criar coisas incríveis. O Castelo de Bonecas nos faz despertar e acreditar que somos capazes do que quisermos e de sermos quem desejamos. Basta só a gente querer”, definiu.

Atualmente, Agripina complementa a renda dela e da mãe com um ateliê que produz vários tipos de peças: “Hoje faço bonecas, bolsas e tudo que envolva a costura criativa”. Nesse cesto cabem enxovais para gestantes e bebês. Mas, quem contrataria o serviço se soubesse o histórico da empreendedora? Certamente, o julgamento sumário da sociedade seria ainda mais implacável que a pena imposta pelo judiciário. Agripina foi presa por homicídio. “Na vida, às vezes passamos por situações em que precisamos fazer escolhas, mas quando não encontramos quem nos ajude a parar e recalcular a rota, encontramos quem nos incentive a resolver tudo com as próprias forças. Isso me levou a fazer a maior burrada da minha vida. Fui levada pelo orgulho e achei que conseguiria fazer tudo”.

Agripina tentou se vingar de uma violência cometendo outra. Um ato impensado, mas, infelizmente, premeditado. De toda forma, ela não tinha histórico de criminalidade e garante que depois da pena, quer se manter bem longe dos ilícitos. “Nunca tive convivência nenhuma com o meio do crime e o tempo que passei lá com pessoas desse meio, não mudou meu pensamento, de que eu não pertencia àquela vida. Quando saí já sabia o que ia fazer, saí certa de trabalhar com tudo que tinha aprendido”.

Júlia

Aos 22 anos, em 2019, Júlia (nome fictício) vivia um relacionamento conturbado com um homem mais velho de quem queria se separar. Ele não aceitava. Isso fazia com o que o casal discutisse e se agredisse com frequência. A rotina de desentendimentos, ciúmes e ataques gerou uma separação momentânea quando a moça já apresentava um quadro de descontrole. Depois disso, o namorado voltou a insistir para que eles voltassem. Houve mais uma briga, eles entraram em luta corporal e Júlia, que sabia onde o companheiro guardava a arma, foi até lá e efetuou contra ele dois disparos fatais. Quando chegou à penitenciária, seu sentimento era de vergonha: “Não há um só dia em que eu não me arrependa. As consequências do que eu fiz são irreparáveis para mim e para a minha família. Se eu pudesse voltar no tempo buscaria analisar a situação de outra forma, buscaria ajuda… que naquele momento  eu não busquei porque achei que conseguiria carregar aquele fardo só”.

Bioflocos na carcinicultura em alta extensão

Uma vez dentro da penitenciária, Júlia passou a digerir o que havia feito e imaginou que não haveria saída do labirinto onde se encontrava. “Aquele momento foi de desespero. Mas, com o passar do tempo vamos vendo as possibilidades e entendemos que há alternativas. Nem eu acreditava que fosse possível estudar, me profissionalizar, me especializar em algo e ter uma bagagem profissional para iniciar uma vida nova lá fora. Eu arrisco dizer que talvez se não tivesse vindo parar aqui [no presídio], não teria a mentalidade que eu tenho hoje”, analisou a reeducanda.

Quando ela se refere à especialização, é um termo empregado em seu sentido prático. Júlia cursa simultaneamente Engenharia de Software e Administração. Seu projeto de negócio é um sonho: “Eu quero iniciar minha empresa focada em bioflocos na produção de camarão em alta extensão. É um pequeno negócio que tem a possibilidade de se estender e se tornar grande. Há vários sistemas de produção de carcinicultura e o que eu estudei permite produzir uma tonelada de camarão em 10 metros cúbicos”.

As primeiras informações sobre o assunto foram obtidas antes da prisão. Júlia frequentou um curso de aquicultura em Bananeiras. Antes, tinha feito outra formação em Agropecuária. “Eu foquei na área de análise hidrobiológica, analisando a água e entendi que não cultivamos o animal, mas a água para que ela forneça boas condições de produção”, detalhou.

Júlia já conseguiu encurtar a pena em cerca de dois anos. Ela sairia em 2029, mas com o estudo e o trabalho, reduziu esse tempo para 2027. “Antes, não, mas hoje eu tenho muita positividade e sei que tenho um futuro! Tenho esperança e sei que minha vida não acabou aqui. E agradeço muito por isso. Agradeço de verdade”.

A família

Como os nomes das reeducandas foram substituídos por outros fictícios, será referido da mesma forma com o primo de Júlia, Roberto, que revelou sua relação com ela desde a infância. “Júlia sempre foi uma pessoa muito querida na nossa família. Ela era aquela prima com quem eu podia contar para tudo, sempre disposta a ouvir e a ajudar. Nós crescemos muito próximos, compartilhando sonhos e muitas aventuras. Antes do que aconteceu, ela era muito admirada por todos. Ela era uma jovem promissora, cheia de sonhos e planos. Estudava duro para alcançar seus objetivos. Todos nós víamos um futuro brilhante para ela”.

Roberto também descreve o que a família sentiu quando a prima foi presa: “O choque foi enorme para toda a família. Ninguém podia acreditar que aquela pessoa tão amada e cheia de potencial estava agora atrás das grades. Foi um golpe duro para todos nós!”.

Júlia, que não tinha o perfil da maioria das reeducandas (80% responde por tráfico de drogas ou associação para o tráfico) também pôde contar com o apoio familiar, algo que não acontece com a quase totalidade de suas colegas de cárcere: “Mesmo depois do ocorrido, tentei manter contato com Júlia. No início, foi difícil, tanto para ela quanto para nós. Mas, no entanto, sabia que o apoio da família era crucial para a sua recuperação e reabilitação. Senti-me impotente e frustrado, querendo fazer mais para ajudar, mas sem saber como. A dinâmica da nossa família mudou bastante, com todos tentando lidar com a situação à sua maneira”, descreveu Roberto.

Ele prossegue, revelando que nunca perdeu a esperança na prima: “Sabia que ela tinha uma força interior enorme e que, com o tempo, ela poderia se reerguer. Minha expectativa era que, com o apoio da família, ela pudesse encontrar um caminho de volta, aprender com seus erros e reconstruir sua vida”.

Atualmente, a reeducanda e o primo estão mais próximos e ele oferece àquela mulher com feridas profundas na alma, um alento raro: “Sei que o caminho não será fácil, mas estou ao seu lado, oferecendo todo o meu apoio e amor incondicional. Acredito que, com paciência e determinação, Júlia conseguirá superar essa fase difícil e encontrará um novo começo”.

Visão do Sebrae-PB

A Analista de Educação Empreendedora do Sebrae Paraíba, Renata Câmara Avelino, avaliou o projeto Castelo de Bonecas sob a ótica da inovação e do empreendedorismo feminino de origem comunitária. “Elas aprimoram as técnicas de produção delas de forma cooperativa, ou seja, encontrando apoio umas nas outras, naquelas mais experientes que possam auxiliar as que estão chegando, formando uma verdadeira rede de mulheres empreendedoras”.

Renata analisa o case do “Castelo” no link abaixo:

Os números

O Sebrae da Paraíba divulgou um boletim sobre as mulheres atendidas nas agências regionais da Paraíba entre 2020 e 2023. Os números mostram que o público feminino representa 55,04% do total de atendimentos realizados. Deste público, a maior fatia está entre 30 e 39 anos, tem ensino médio completo e agosto do ano passado foi o mês com maior demanda desde o início da pesquisa. Quando o recorte é focado nas Salas do Empreendedor, um dado salta aos olhos. Queimadas é o município que lidera o ranking, com 8.785 mulheres atendidas. Campina Grande vem em segundo, com 8.026 e somente aí aparece a capital do Estado, João Pessoa, com 5.694.

A esperança depois do fim

Nesses 12 anos de Castelo de Bonecas, a diretora da Penitenciária Júlia Maranhão já viu várias vidas serem transformadas através do oferecimento de uma ferramenta simples, à mão, mas que significa muito para quem tem avidez por um recomeço digno. “Você fala ‘mas o dinheiro que ela ganha com o comércio dela nunca se compararia ao que ela poderia faturar com outro tipo de negócio ilícito’. Mas, é diferente quando elas recuperam… elas tomam o controle, as rédeas das vidas delas novamente. Como elas se empoderam! A fisionomia muda, o jeito muda, a postura muda. É muito bacana quando elas entendem que através disso elas conseguem recuperar a vida”.

No link abaixo, Cinthya conta sobre o início e os ganhos do Castelo de Bonecas nos últimos 12 anos.

Por que Júlia Maranhão?

Júlia Maranhão foi a avó do ex-governador da Paraíba José Maranhão, falecido em 8 de fevereiro de 2023 em São Paulo. Ele era o gestor estadual quando a penitenciária foi inaugurada em 2000. Houve uma sugestão para que a casa fosse batizada com o nome de Wilma Maranhão, irmã do governador, desbravadora na política e uma defensora dos direitos da mulher. Zé argumentou que não caberia a honraria em vida e preferiu que a homenagem fosse prestada à avó, que havia sido empreendedora, fazendeira em Araruna e já havia falecido.

 

Texto, reportagem e edição: Cláudia Carvalho

Fotos: Lucas Gomes

Infográficos: Gerson Souza e Sebrae-PB.

 

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