Cláudia Carvalho

Cláudia Carvalho é editora e diretora do ParlamentoPB. Jornalista e radialista, mestranda em Jornalismo Profissional pela UFPB, apresentadora da TV Assembleia e diretora de Comunicação do Sindicato dos Jornalistas do Estado da Paraíba.


Jornalismo em tempo de Guerra

Parece surreal, como tantos episódios dos dias atuais. A jornalista Verônica Guerra foi suspensa por dois dias pelo Sistema Correio de Comunicação porque emitiu uma opinião sobre as oito mortes ocorridas em Barra de São Miguel de suspeitos de assalto e assassinato de um policial. O “erro” grave foi questionar a ação da polícia que exibiu os corpos dos mortos sobre uma caminhonete e amontoados seminus em uma Unidade de Pronto Atendimento. Verônica também se declarou chocada com a reação do povo que aplaudiu o cortejo com os cadáveres.

Irresignada com a reprimenda do Correio, Verônica preferiu pedir demissão.

São tempos tristes esses que vivemos em que um jornalista não pode emitir uma opinião. Antes do Correio se posicionar sobre o “caso”, entidades representativas da polícia já haviam divulgado uma nota crítica a Verônica. Nos grupos de WhatsApp e nas redes sociais de maneira geral, ela foi tratada praticamente como inimiga pública.

É estarrecedor. Especialmente porque boa parte dos jornalistas pensa exatamente como Verônica. Eu, inclusive. Lamento que seres humanos se alegrem ao verem uma montanha de cadáveres. É desalentador que exponhamos defuntos quase sem roupa, uns por cima dos outros, sujos de sangue, como se fossem trofeus e batamos palmas diante desse cenário mórbido.

Vivemos uma época em que defender os direitos humanos – meus, seus e de todos os seres humanos, não apenas de bandidos – parece um crime gravíssimo.

A censura a Verônica é, na verdade, um sinal inconteste de que o jornalismo vive um momento de patrulha, de um monitoramento que nada tem de saudável. Discordar da jornalista é totalmente aceitável, mas puni-la por dar uma opinião é vexatório.

Do comentário de Verônica, só evitaria o termo chacina, apenas por achar que ele se aplica melhor a situações em que há um evidente desequilíbrio de forças, o que não se configurava no confronto entre bandidos que receberam a polícia à bala e os homens da lei. Mas, literalmente, a palavra designa uma série de mortes, o que efetivamente ocorreu.

Nessa realidade azeda do cotidiano da notícia, resta prestar solidariedade a Verônica e apertar os cintos nesse trem que nos leva a revisitar o passado. Não sei se a próxima parada será a Idade Média ou a Antiguidade, onde a Lei de Talião, “o olho por olho e dente por dente” era a regra basilar.

Jornalismo em tempo de Guerra

4 comentários

  • Fernando Abath Cananea
    22:54

    Lastimável ver a polícia exibindo corpos mortos como se fossem coisas. Lastimável atitude é mais ainda uma jornalista que se posicionou contra esse exibicionismo ser punida pelo sistema correio de comunicação.
    Eles já tinham sido mortos, não precisava esse desfile macabro.
    Senhor governador, oriente a polícia do estado a saber trabalhar sem exibicionismos.
    Fernando Abath
    Professor

  • Alexandre Tavares
    22:54

    Lamentável, a cena, a posição do veiculo de comunicação e infelizmnete grotesco o regosijo do povo! Eu não sou contra a força aplicada pela policia em defesa da sociedade e dela própria, se alguém precisar morrer, que esse alguém seja o bandido. Isso é fato! Mas acredito na policia que não sai em ação para matar e sim para cumprir a lei. O dever do jornalista é de informar e se a posição dele naquele noticiário é de dar opinião (o caso de Veronica) que o faça! E faça com responsabilidade, dignidade, cidadania e competencia que são marcas visiveis em Verônica. A sociedade vive um momento muito confuso entre certo e errado. Aceita que crimes sejam cometidos sob o argumento que vão acabar com outros crimes mais ou menos danosos a ela própria. A ignorancia é combustivel para manter o povo dividido, segmentado, polarizado e confudo. Confuso pois não sabe dividir as coisas e acreditam que tudo é aquilo que esta posto pra ele como verdade, e verdade absoluta! Sinto muito ver pessoas criticarem não a Veronica, mas a imprensa que informa e forma opinião.

  • Dalmo
    22:54

    O Sistema Correio fez fortuna com esse tipo de showrnalismo. Veronica expressou, tão somente, o mal-estar daqueles que defendem uma comunidade sem barbárie. Experiente e qualificada, Veronica sabe que a opinião dentro do CP não é livre! Desmilitarização da PM me parece a única maneira de minimizar esse tipo de monstruosidade.

  • Gilberto lina
    22:54

    Vcs jornalistas que defender bandidos deveriam adotarem eles e levar pracass de vcs pi.entanodos outros e refresco bandido bom e bandido morto

Comentários

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