Mário Tourinho

Administrador, pós-graduado em Planejamento Operativo, já atuou na administração pública federal, estadual e municipal


“Gente, por favor: a vida não se resume em festivais!…”

Vai completar 50 anos daquela tão marcante noite brasileira, no Maracanãzinho (Rio de Janeiro), em que o jornalista Hilton Gomes (então com 44 anos e agora já nos céus), “mestre de cerimônia” do IV Festival Internacional da Canção (FIC), anunciou a música 2º lugar e convidou seu autor/intérprete para reapresenta-la: a canção, “Caminhando” (ou ´Pra não dizer que não falei das flores´); o autor/intérprete, Geraldo Vandré! A data: 29 de setembro de 1968.

Vandré tinha, então, 33 anos, vez que nascera aqui em João Pessoa em 12 de setembro de 1935. E as mais de 20 mil pessoas que superlotavam o Maracanãzinho, pela apresentação que ele já fizera momentos antes, tinham-no ovacionado e obviamente eleito “Caminhando” como a canção 1º lugar do referido festival! Foi, pois, uma frustração para o público o anúncio como 2º lugar. E essa multidão, em vez de (re)receber aquele seu novo ídolo com a ovação que dispensara antes,  reagiu em protesto contra a comissão julgadora, fazendo ecoar um “coro” tão estridente quanto quase interminável, dizendo “É marmelada!”.

E aí o próprio Geraldo Vandré, como que insistindo por uma pausa para falar ao público, saiu em defesa dos compositores da canção 1º lugar, “Sabiá”, Tom Jobim (então com 41 anos e agora nos céus) e Chico Buarque (então com 24 anos). Disse: “Tom Jobim e Chico Buarque merecem nosso respeito!”. E depois de dizer mais algumas palavras, e também como a pedir a compreensão e aconselhando a todos, falou alto: “Gente, por favor: a vida não se resume em festivais!…”. E começou a cantar:  “Caminhando e cantando/ E seguindo a canção…”.

No refrão da música a voz de Vandré encobria-se pelas vozes da multidão, que, emocionada, exaltava: “Vem, vamos embora/ Esperar não é saber!…”.

Vai completar 50 anos daquela tão marcante noite brasileira! Esse intervalo de tempo está narrado no livro “Não me chamem Vandré”, do paraibano Gilvan de Brito. E nas  notícias de agora, desta semana que termina, esteve a manchete de que “Vandré volta ao palco após 50 anos, em shows na quinta e sexta feiras no Espaço Cultural”. Para as duas apresentações os ingressos, grátis, foram todos entregues em menos de duas horas. E uma outra multidão que ficou sem ingressos, como que “chateada” pelo auditório comportar pouca gente, rememorou  aquela noite de 29 de setembro de 1968: – “É marmelada! É marmelada! É marmelada…”. Vandré, que lá no Espaço Cultural encontrava-se em ensaio, dirigiu-se até aquele público e, ao cumprimenta-lo, mostrou-se mais emocionado que naquele festival no Maracanãzinho. Foi como estivesse mais uma vez a aconselhar: “A vida não se resume em festivais!”.

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