Angélica Lúcio

Angélica Lúcio é jornalista, com mestrado em Jornalismo pela UFPB e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Atualmente, atua na Comunicação Social do HULW-UFPB/Ebserh como jornalista concursada.


Estadão encolhe, o jornalismo impresso resiste

O jornal O Estado de S. Paulo encolheu. Saiu do tradicional formato standard para o berliner, que tem centímetros a menos. A mudança chegou aos leitores no domingo passado, 17. Mais do que uma simples alteração no tamanho do papel, a medida adotada pelo Estadão revela que o jornalismo resiste. Além disso, evidencia vontade de inovar, em busca de leitores mais jovens, e de continuar investindo na plataforma impressa.

A decisão de aderir ao novo formato, claro, é reflexo da crise no modelo de negócio do jornalismo, em especial o impresso. Crise, aliás, que já sepultou vários veículos de papel Brasil afora, inclusive o Jornal da Paraíba, em 2016, e o Correio da Paraíba, em 2020 (ambos de João Pessoa). Em relação ao Estadão, a escolha pelo formato berliner também remete à própria história do veículo, que havia adotado esse modelo de jornal em edições noturna e vespertina nas duas Guerras Mundiais. Em tempo: o jornal standard tem o formato de 60 cm por 75 cm; já o berliner, 31,5 cm por 47 cm. 

Navegando por uma rede social, assisti a um vídeo recente feito na gráfica do jornal O Estado de S. Paulo e me emocionei. Juntos, vários jornalistas aguardavam os primeiros exemplares do Estadão no novo formato. Antes, ainda na noite de sábado, um sino tocou na redação quando as últimas 116 páginas do veículo seguiram para a gráfica. Houve comemorações. 

Vi também outros vídeos e me deu um calorzinho no coração. Num deles, um funcionário mais antigo mostrava ao fotógrafo Bruno Nogueirão como fazer a ‘prova’ do jornal para saber se as cores estavam indo da forma correta para a impressora. Fiquei emocionada de novo, admito. 

Só quem já trabalhou em jornal impresso sabe a magia que essa plataforma ainda guarda. Sabe o mundo de gente, além de fotógrafos, editores e repórteres, que se envolve no processo produtivo. Sabe quantas pessoas seriam demitidas se mais um veículo de comunicação fechasse. 

Fazer investimentos em tempos de pandemia exige ousadia. Mas a mudança empreendida pelo Estadão não se deu em 15 ou 30 dias. Implicou praticamente um ano de trabalho, pesquisas com leitor, novo projeto gráfico. Pelas sondagens, conforme li em reportagem publicada pelo veículo, os assinantes simpatizavam com o formato berliner, que é um modelo germânico, mas havia ainda a dúvida: será que a redução vai agradar mesmo? 

No domingo, vários leitores foram às bancas em São Paulo para conferir o novo jornal. Alguns ligaram para a redação reclamando do tamanho da fonte de seções que (eu bem sei) parte do público leitor considera essencial: palavras-cruzadas e sudoku. As letras e os números ficaram muito pequenos, reclamaram. Mas o jornal se prontificou a corrigir a falha no próprio domingo, segundo registra matéria publicada em seu site às 22h40. Também no domingo, na avenida que leva meu nome, a banca Buenos Aires informou ao veículo que não havia dado conta da demanda, e vários leitores foram embora sem levar o jornal para casa.

Estou torcendo muito para que o Estadão no formato berliner dê certo (ainda que eu tenha várias reservas quanto a editoriais no estilo “uma escolha muito difícil”). Só o tempo, no entanto, dirá se o encolhimento no formato do jornal não afetará a qualidade do conteúdo para o leitor. Aí, poderemos dizer: “Estadão” não se refere a tamanho; “Estadão” é um estado de espírito. 

angelicallucio@gmail.com

 

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