Em jantar em homenagem a Temer, Bolsonaro vira piada de salão

Um jantar na casa do investidor Naji Nahas em São Paulo nesta segunda-feira em homenagem ao ex-presidente Michel Temer foi a mostra mais eloquente e risonha de que o impeachment de Jair Bolsonaro não sairá.

Em torno da mesa e de vinhos estrelados se reuniram políticos, advogados, empresários, jornalistas, médicos e um humorista, André Marinho, que imitou o homenageado e o capitão, para gáudio da plateia. Mas será prudente, ou mesmo inteligente, tratar Bolsonaro como piada de salão? Não parece.

Estavam no jantar, entre outros, o ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro de Temer Gilberto Kassab, o empresário Paulo Marinho, o advogado José Rogério Tucci, o médico Raul Cutait e o empresário de comunicações Johnny Saad.

Vídeo que foi feito pelo marqueteiro de Temer, Elsinho Mouco, e enviado a jornalistas, viralizou nas redes sociais. Nele, André Marinho imita um abobalhado Bolsonaro reclamando da capitulação a que Temer o teria obrigado diante do Supremo Tribunal Federal, mas agradece ter tido a pele salva.

O ex-presidente, vermelho, foi quem mais gargalhou, satisfeito da própria relevância. No jantar, houve agradecimentos a ele por ter “salvado” o país de uma crise mais grave. Temer contou que só aceitou ir a Brasília e intermediar a conversa com Alexandre de Moraes quando Bolsonaro se comprometeu, com antecedência, a assinar uma carta.

Os presentes demonstraram ceticismo quanto à moderação de Bolsonaro. Acham que outros arroubos virão. Mas viram na desmoralização do avanço golpista do capitão um sinal de que ele não logrará êxito em conspurcar a democracia.

A primeira impressão da cena pode mostrar um presidente humilhado, desacreditado, carta fora do baralho. Afinal, seu antecessor, que foi chamado às pressas para socorrê-lo quando houve risco real de que sua pregação golpista inviabilizasse sua permanência na Presidência, estava lá se dobrando de rir da situação.

Mas tratar Bolsonaro como café com leite mostra profunda incompreensão do mix de fatores que o levou à Presidência, do enraizamento de seu discurso golpista e autoritário em grandes setores da sociedade e, sobretudo, da força que a máquina, principalmente o Orçamento, tem num regime presidencialista com reeleição.

Ainda resta mais de um ano para as eleições. Bolsonaro está disposto a implodir o teto e o que mais precisar para voltar a ser competitivo. E vai continuar minando o Judiciário, Poder que se mostrou minimamente disposto a contê-lo, daqui até o pleito, investindo principalmente contra a credibilidade do sistema eleitoral.

Esse discurso que pode parecer insano aos olhos de quem está acostumado, como os comensais, a analisar a política pela régua tradicional, levou centenas de milhares às ruas num feriado.

Está nos almoços de família a desconfiança na urna eletrônica, algo impensável apenas alguns anos atrás. A fala de que o STF pratica uma “ditadura branca” está na boca da tia do interior, ou do cunhado de muitos de nós.

Não é pouca coisa e não deveria ser tratado como entretenimento para homens endinheirados, muitos dos quais têm responsabilidade política de ajudar o Brasil a superar essa crise que, na base da pirâmide social, está provocando mortes (por covid-19 ou não), miséria, fome e desemprego.

Temer, o homenageado, prestou um desserviço ao ajudar a acomodar as abóboras na carroça golpista de Bolsonaro. Para ficar numa piada ao gosto do capitão, adaptada para este texto, mas que cairia bem na imitação talentosa de André Marinho, Bolsonaro é do tipo que se faz de morto para atingir o coveiro.

 

Bela Megale (O Globo Online)

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