Nelson Barros

Nelson Barros é psicoterapeuta e escritor.


É Noite de São João

As mulheres da vizinhança se juntavam já de manhã cedo. Vários sacos grandes, cheios de milho, trazidos da feira ou do sítio, pelos homens. Cabia aos meninos retirar-lhes as cascas (preservando as mais clarinhas, que seriam usadas depois para embalar pamonhas) e os cabelinhos dourados.

As espigas eram separadas. As mais tenras, umas para cozinhar, outras para assar direto na fogueira. As demais para serem raladas e transformadas em canjicas, pamonhas e bolos.  Aquilo era uma farra.

O mulherio num trabalho danado. A meninada perto, esperando a “quenga” do coco, para comer com açúcar a última raspinha. A conversa animada das vizinhas.

Varinhas mágicas em forma de colher de pau. As poções das cozinheiras fumegando em panelas gigantes, temperadas com canela e alegria. Pacotinhos sem nenhuma costura, feitos com as cascas mais macias das espigas de milho recebiam o líquido das pamonhas. A canjica e o mugunzá fervendo. Bolos no forno. Cocadas e pés de moleque esparramados no mármore para serem cortados em losangos de pura delícia. O cheiro bom no meio do mundo. Cada vizinha saía com a sua parte. Travessas de canjica salpicadas de canela em pó, tigelas de mugunzá doce, bolos de fubá, pamonhas nos seus saquinhos…

Aos homens cabia a tarefa de providenciar a fogueira, pendurar as bandeirinhas de papel de seda, comprar as bebidas, os fogos que seriam soltados mais tarde.

No fim do dia, mesa na calçada, rua decorada, criançada devidamente arrumada, repetindo a roupa usada na quadrilha da escola. Meninas de vestidinhos estampados e maria chiquinha nos cabelos. Meninos parecendo miniaturas de Mazaroppi, camisa xadrez e bigodinho pintado de carvão.  Música no terraço. Hora de acender a fogueira e começar os comes e bebes.

Guaraná para a garotada, ‘batida’ de amendoim e ‘leite de onça’ para as mulheres, cerveja e cachaça para os homens.

Os fogos eram distribuídos por faixa etária. Para os menores, traques, chuveirinhos. Os maiorzinhos, ‘peido de véia’ e ‘mijão’. Os adultos, bombas bujão, pistolas, rojões.  Todo mundo brincava abençoado por São João.  Moças solteiras faziam ‘adivinhações’ pingando vela em bacias de água ou enfiando facas no tronco de bananeiras, para descobrir se iam casar ou pra ver as iniciais do futuro marido. Amigos queridos se tornavam compadres e comadres, através de um juramento feito em volta da fogueira, e isso era uma especie de upgrade na amizade.

O mundo cheirava a fumaça. O céu estrelava e estrondava de fogos. Balões subiam e desapareciam para uma misteriosa imensidão.
Luiz Gonzaga, Trio Nordestino… ?tem tanta fogueira, tem tanto balão, tem tanta brincadeira, todo mundo no terreiro faz adivinhação…?

Alguém sempre se queimava com os fogos, alguém ficava bêbado, alguém começava um namoro. Menino que ficasse muito tempo perto da fogo, mijava na cama (Eu mesmo lembro de uma vez que fiz isso, e como dormia na mesma cama que meu irmão, troquei meu calção com o dele, que passou a vergonha no meu lugar. Só confessei isso quando éramos adultos. Primeiro ele teve raiva. Depois a gente quase que ‘se mija’ de novo, de tanto rir).

Era assim nossa festa de São João.

Aos olhos de hoje era machista. Mulher na cozinha, homem soltando fogos. Era politicamente incorreto, ecologicamente incorreto… balão que podia incendiar floresta, bomba que assustava cachorro.

Essas coisas mudaram muito. E é mesmo bom que mudem. Tá certo. Tem que proteger o mato, tem que cuidar dos bichinhos, homem vai pra cozinha, mulher acende a fogueira…

Tá certo. Tem que mudar, pra ser bom pra todo mundo…

Mas sabe?

Naquele tempo parecia que era ‘mais bom’ pra todo mundo!

Curiosidades:

1 – Quenga é a tigela que se forma quando se quebra o coco, depois de ralado.
2 – Canjica no sudeste é curau. Mas experimenta a daqui, pra tu ver a diferença. E de preferência, raspa o tacho!
3 – Mugunzá no sudeste é canjica. Aqui se faz em duas versões, doce e salgado.
4 – Peido de véia é uma bombinha, do tipo intermediário, em forma triangular. As vezes ‘fáia’ e faz um som ‘pffffff…’
5 – Mijão é uma espécie de rojão. Sai soltando faiscas pelo chão, os meninos correndo dele.
6 – Batida é um tipo de caipirinha, só que leva leite condensado na receita. A de amendoim e o leite de onça são as mais comuns.
7 – O famoso quentão (vinho aquecido com especiarias), não faz parte da tradição da minha região.
8 – A música citada é “Brincadeira na Fogueira”:

Um dia eu estava conversando com um senhor, em uma festa na casa de amigos e o assunto era esse. Eu cantei um pedaço da música e disse: “acho que essa é uma das primeiras músicas que aprendi na vida”. E ele respondeu “que coisa boa. O autor dessa música sou eu”.

Meus ‘zóim’ se encheram de água e eu perdi a voz. Era Antonio Barros, aquele compositor que todo forrozeiro nordestino conhece por que conhece, e que o Brasil todo conhece por causa de “Por Debaixo dos Panos”, que Ney Matogrosso gravou, e que é dele (Antonio Barros) e da sua companheira, também compositora, Cecéu.

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