Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Dois longas e um curta paraibanos participam da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Com a versão presencial cancelada pelo agravamento da pandemia e desastres ambientais em Minas Gerais, teve início ontem a edição online da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes que se estende até o próximo sábado, 29.  Representando a Paraíba, temos o curta ‘Sangue por sangue’, de Ian Abé e Rodolpho de Barros, e os longa-metragens ‘Cerveja no Escuro’, de Tiago A. Neves e ‘Pele fina’, de Arthur Lins’. A 25ª Mostra é, talvez, o evento de cinema no país que abriga o maior número de mostras na sua programação. São ao todo 15 que dão conta da diversidade do cinema brasileiro atual. Os três filmes paraibanos estão na Mostra Panorama (o curta) e WIP Brasil Cinemundi (os dois longas).

A Mostra de Cinema de Tiradentes tem uma longa tradição de apontar tendências no cinema brasileiro dos últimos anos. A Mostra Panorama, como revela o nome, abrange uma seleção de curtas-metragens de diversos estados brasileiros. Este ano, são 23 curtas, incluindo a Paraíba com ‘Sangue por sangue’, na segunda sessão, disponível para reprodução online na segunda-feira, dia 24, a partir das 16h horas durante 24 horas.  Primeira parceria da direção entre Ian Abé e Rodolpho de Barros, aborda o dilema vivido por três homens (interpretados por Tavinho Teixeira, Servílio de Holanda e Geyson Luiz) que se encontram isolados em uma misteriosa floresta, cujas decisões vão mudar irremediavelmente seus destinos. 

 ‘Cerveja no escuro’ e ‘Pele fina’, e mais 13 longas, inauguram uma novidade na Mostra Conexão Brasil Cinemundi com a recém-criada categoria Work in progress (WIP), trazendo a exibição de filmes em sessões e encontros que reúnem profissionais da indústria audiovisual internacional e players brasileiras para possíveis acordos de distribuição no futuro. Assim, o mercado internacional poderá ter contato com o que de novo anda sendo produzido no cenário cinematográfico brasileiro. ‘Cerveja no escuro’, por exemplo, está em estágio de primeiro corte com 90 minutos de duração.

Resultado de ações de formação, ‘Cerveja no escuro’ é um filme experimental realizado durante o projeto Cinema no Meio do Mundo – CIMM, no município paraibano de Princesa Isabel acontecido em setembro do ano passado. Esses encontros online tiveram a participação de mais ou menos 40 participantes de três grupos culturais da cidade, ocasião em que trabalharam jogos de interpretação e formação para o audiovisual. O longa-metragem, dirigido por Tiago Neves, que daí surgiu está em processo e narra a história de Edna, moradora da zona rural que, depois de perder o marido, se muda para casa de sua filha na cidade. Para superar seu luto decide realizar um filme para uma competição de um festival na própria cidade, mas acaba num conflito com sua filha. O paraibano Tiago Neves é uma das cabeças pensantes do projeto Cinema Instantâneo surgido em São Paulo em parceria com o cineasta e ativista cultural Antonio Fargoni, entre outros.

Arthur Lins, que já teve seu primeiro longa-metragem ‘Desvio’ na 22ª edição da Mostra de Tiradentes, volta agora com o filme ‘Pele fina’, em processo de finalização, para apresentar às players nacionais e internacionais. Sem duração definida, ‘Pele fina’ conta a história de Luísa que, diz a sinopse, viaja para uma praia deserta no intuito de escrever uma adaptação da peça teatral Psicose 4.48, da autora inglesa Sarah Kane. Eventos inesperados tensionam Luísa a um lugar fronteiriço entre a imersão no processo criativo e a pulsão aniquiladora presente na obra da autora, que cometeu suicídio aos 28 anos após finalizar a peça. No elenco, Ingrid Trigueiro, Mariah Benaglia e Tavinho Teixeira. A produção é da Electra Filmes.

Com o tema Cinema em Transição, a Mostra de Tiradentes 2022 comemora Bodas de Prata tendo na sua programação um número significativo de filmes (169 ao todo), enfatizando a diversidade de estilo e estética no tratamento da linguagem cinematográfica, mas também apresentando uma pluralidade de olhares de realizadoras e realizadores do país, dando voz e vez às pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+, quilombolas de diferentes origens que revelam uma ampla diversidade de representações. Com a crise por qual passa a cultura brasileira, perseguida abertamente por um governo que insiste em negar a ciência e rejeitar as artes, um evento como este é um ato de ressistência que deve ser festejado.   

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