Nelson Barros

Nelson Barros é psicoterapeuta e escritor.


Dois Brasis

Essa história me veio à lembrança por causa de um texto da escritora Ana Lia Almeida,  onde ela narra as desventuras de uma empregada doméstica, em seus trajetos casa/trabalho/casa no transporte coletivo. Rita na Luta. Recomendo a leitura. saltodepalavras.blogspot.com

Pois bem, era eu rapazote do ensino médio, morador da Avenida Pombal, numa casa que ainda hoje existe. O ônibus que me trazia do Liceu Paraibano, me deixava na Avenida Rui Carneiro, na frente do Hotel Sol Mar. Dali eu seguia caminhando e, sempre que  passava na lateral da Seráfico Nóbrega, uma escola municipal que também ainda (r)existe, encontrava um grupinho de rapazes, aparentemente da mesma idade que eu, nesse pequeno trajeto. Eu chegando da escola, eles, chegando nela. Nas primeiras vezes em que isso aconteceu, tive um certo receio. E eles, de fato, tiravam um pouco de “onda” comigo, coisa que não durou muito. Eu dava risada e a gente foi com a cara uns dos outros. Um dia, um deles me pediu um caderno.

     “Me dá um desse aí, playboy. Eu tô sem ter onde anotar as aulas”.

      Uma das grandes alegrias da minha vida, todo começo de ano, era quando chegava o meu material escolar. Desde o material colorido dos primeiros anos, até os dos tempos de faculdade, mais sérios, evidentemente, mas mesmo assim divertidos.

     No dia seguinte, passei numa livraria que tinha no próprio Liceu, comprei três cadernos desses de 10 matérias, canetas, lápis e borrachas e levei pra galera.

     “Eita, p…! Num é que o playboy trouxe mermo!”

     Assim começou nossa amizade, se é que posso dar esse nome. Todo dia, finzinho de tarde, uma paradinha para conversar e dar umas risadas. Não lembro dos assuntos. Possivelmente coisas de adolescente. Lembro da vontade de parecer igual, embora reconhecesse as distâncias e que as diferenças me causavam constrangimento. Então os temas das conversas deviam ser sexo, esporte ou música, enfim.

     Um dia vieram as férias e no semestre seguinte não encontrei mais os garotos. Senti falta sobretudo daquele que me pediu o caderno, e que, por não lembrar do seu nome (aliás, nem sei se algum dia soubemos os nomes uns dos outros), vou chamar de Valdinho, que é o mesmo de um dos personagens da crônica de Ana Lia.

     Passou o tempo, passei no vestibular e me esqueci deles. Nessa época já frequentava as baladas locais, os barzinhos de música ao vivo, muito vivos na memória, o cinema do Hotel Tambaú, a feirinha, A Nutritiva etc.

     Uma madrugada, voltando a pé pra casa, com um amigo (era seguro), um grupo de rapazes de bicicleta nos cercou, anunciando o assalto. Revólveres e facas nas mãos, mandaram a gente sentar no meio fio, baixar a cabeça para não olhar para eles e foram fazendo “a limpa”. Relógios, sapatos, camisas e carteiras. Só deixaram as calças.

Nesse tempo eu usava o cabelo curtinho e passava gel, de modo que ficava cheio de pontinhas duras, porco espinho punk de boutique. Por que conto esse detalhe?

     Durante aquela situação toda, um dos meninos botou a mão na minha cabeça. Claramente queria ver se o cabelo espetava. Nesse momento nossos olhos se encontraram. Era Valdinho. A gente se reconheceu na hora. Foi a centésima pentesimal de um segundo, mas nos reconhecemos, mesmo não havendo nenhum tipo de comunicação. Ele, que estava com a minha carteira, puxou de lá os documentos e jogou nos meus pés, enquanto escapulia com os outros e os avisos de que a gente ficasse ali, até que tivessem sumido.

     Meu amigo e eu fomos pra minha casa, estávamos quase na esquina. Minha mãe ligou para a polícia, que não apareceu. E eu não sei se achei ruim.

     Durante algum tempo, a lembrança do susto, da ameaça e da camisa que eu adorava, se misturavam com a de Valdinho espetando a mão no meu cabelo.

     Hoje, no lugar do Hotel Sol Mar funciona uma escola particular. E logo atrás está a escola municipal. Um Brasil de frente para a avenida, outro Brasil no fundo. Um Brasil que foi para a faculdade e outro que foi para as ruas, numa realidade que hoje é ainda mais dramática que aquela de quando isso aconteceu. Um Brasil que está aqui, contando essa história, e Valdinho, que talvez nem exista mais, apagado da história.E antes que alguém diga:

     “Mas ele te assaltou mesmo vocês sendo amigos, mesmo você tendo o ajudado um     dia?” Eu já respondo:

     Não é sobre isso. Valdinho e eu não tivemos as mesmas chances. Nossa nação trata de maneira muito desigual os seus filhos. A gente sabe muito bem. Ou deveria saber, entender o quanto isso é importante e lutar por um mundo mais justo.

NB

Trilha Sonora:

O Meu Guri – Chico Buarque

Canción Pará Un Niño En La Calle – Ángel Ritro/Armando Tehada Gomez  – com Mercedes Sosa

Querelas do Brasil (O Brasil Não Conhece o Brasil) – Maurício Tapajós/Almir Blanc – com Elis Regina

Olha o Menino – Jorge Benjor – com  Caetano Veloso

Comentários

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.