Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


“Desvio” e a afirmação da ficção cinematográfica paraibana de longa-metragem

A Paraíba está representada na mostra “Sessão Vitrine 10 anos: Novos clássicos do cinema brasileiro” com o longa Desvio, de Arthur Lins, cineasta e professor de Montagem do curso de Cinema e Audiovisual da UFPB. São quatro longas-metragens e cinco curtas com estreia simultânea na última quinta-feira, dia 29, nas plataformas digitais e salas de cinema do país. Segundo a curadoria da mostra, os filmes selecionados passaram pelos crivos de qualidade estética e narrativa, originalidade e autoralidade. Todos os longas-metragens poderão ser locados nas plataformas Now, Oi Play e Vivo Play.

O cinema paraibano, ainda lembrado pela forte tendência documental, a partir do seu pioneiro Walfredo Rodriguez com Sob o céu nordestino (1929), e nacionalmente por Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, perpassou as décadas de 1960 a 1970, com raras incursões na ficção. É bom enfatizar aqui que o próprio Rodriguez, tradicionalmente documentarista, rodou uma ficção: Amor e Perdição, em 1922, e Noronha também se arriscou no gênero com o mal-afortunado longa-metragem Fogo, o salário da morte, em 1971. Machado Bittencourt ousou e filmou dois longas de ficção: Maria Coragem (1978) e O caso de Carlota (1982), os primeiros longas rodados em Campina Grande.  E em 2005, Vania Perazzo e Ivan Hlebarov rodam, em 35mm, o longa Por 30 dinheiros.

Em dezembro de 2018, durante o13º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, público e crítica se surpreenderam com a quantidade (e qualidade) dos longas-metragens paraibanos abrigados na Mostra Sob O céu Nordestino, uma homenagem ao longa pioneiro de Rodriguez.  Foram seis filmes, dois mistos de documentário e ficção: Ambiente familiar, de Torquato Joel, e O seu amor de volta (mesmo que ele não queira), de Bertrand Lira; e quatro ficções: Estrangeiro, de Edson Lemos Akatoy; Beiço de Estrada, de Eliézer Rolim; Rebento, de André Moraes; e Sol Alegria, de Tavinho Teixeira. Algo impensável há menos de uma década. 

Esse boom de longas foi alcunhado de “Primavera do Cinema Paraibano” pelo crítico paulista Luiz Zanin Orichio em matéria do Estadão. A maioria desses filmes foi produzida graças ao Prêmio Walfredo Rodriguez de Produção Audiovisual do Fundo Municipal de Cultura. O longa de ficção de Arthur Lins, no entanto, é fruto do edital do Fundo de Incentivo à Cultura Linduarte Noronha de 2015 do Governo do Estado da Paraíba e estreou em 2019 na Mostra de Tiradentes. 

Desvio conta a história de Pedro (Daniel Porpino), um detento em regime semiaberto, que recebe indulto natalino e decide viajar até Patos, cidade do sertão paraibano, para visitar a família. Lins lança mão desse fato inicial para fazer um retrato meio niilista da juventude interiorana, seus conflitos, anseios, angústias em um contexto sem muitas perspectivas de realização profissional e pessoal. A viagem vai proporcionar a Pedro reencontros com o núcleo familiar e amigos, com o surgimento de conflitos, mas também de sentimentos afetivos adormecidos. 

Vamos descobrindo que Pedro era guitarrista e vocalista de uma banda de rock punk e também que não consegue, nesse retorno à cidade, inserir-se plenamente, mostrando-se deslocado nos shows e reuniões dos grupos de Pâmela (Annie Gorretti), sua prima. É a música cantada de modo visceral e a moto na estrada que vai liberá-lo desse deslocamento e fazê-lo extravasar emoções contidas, literalmente num grito, cuja imagem se funde com a de Pâmela, revelando uma conexão que vai além das aparências. Num parque aquático em obras, seis amigos reunidos depois de um show bebem e fumam um baseado enquanto filosofam a respeito do tempo e seus efeitos nefastos sobre o vigor da juventude. Uma deliciosa ironia saindo da boca de um jovem com toda uma vida à frente.

As diversas formas de encontrar a liberdade se manifestam na contestação dos valores familiares, na opção pela música underground e de protesto, na forma de se vestir e comportar, no consumo de drogas, nos pequenos delitos, como o furto de bebidas em supermercados, ou nas pequenas subversões cometidas por Pâmela, como a de não fazer o Enem e esconder a transgressão dos pais, além do desejo de se desligar da família no rastro de uma vida autônoma. Assim, a estrada se apresenta como única saída. A letra da música final indica essa confusão de sentimentos: “A vida é um caos, lá fora um vazio e aqui dentro é um caos.”

A paisagem mostrada em grandes planos abertos parece expressar essa transição de uma terra de verde abundante, o litoral, para uma terra de vegetação seca, o sertão, materializando nas imagens a aridez da vida dos personagens. Não há como não desenterrar da memória imagens emblemáticas de Sem destino (Easy Rider, 1969), dirigido e atuado por Dennis Hoper. A mise-en-scène de Lins opta por planos com maior duração, detendo mais tempo na cena para nos permitir perscrutar uma expressão, um movimento, uma postura dos personagens que possam revelar sua interioridade, às vezes não expressa nos diálogos. O desencanto com um universo, não mais familiar para esses jovens que vivem um padrão destoante dos demais, dá a tônica de Desvio

Lins optou por mesclar atores – com experiência em cinema e teatro como Daniel Porpino, em excelente atuação e caracterização, Melânia Silveira (a mãe), Cely Farias (que também preparou o elenco), Felipe Espíndola, Osvaldo Travassos, Fabiano Raposo, Thardely Lima, Fernando Teixeira, entre outros, – com não-atores que surpreendem ao revelar boas atuações, a exemplo de Annie Goretti. Alguns diálogos, e aqui me remeto a um particular entre os personagens Vitor e Pâmela, parecem brotar do improviso.

Arthur Lins vem de uma experiência de curtas-metragens bem-sucedidos. De O plano do cachorro (2009), A felicidade dos peixes (2011), O matador de Ratos (2013), a Aqueles que ficam (2015), seus curtas figuraram na seleção de festivais e mostras importantes como o Festival Internacional de Curtas de São Paulo, do Rio de Janeiro, e de Belo Horizonte. Neste seu primeiro-longa-metragem, Arthur rodou um filme com uma equipe “doméstica”, com mais de 90% de sua equipe convocada entre atrizes, atores e técnicos paraibanos ou aqui residentes. Apenas o fotógrafo Lucas Barbi (mineiro residente em São Paulo) e o autor da trilha sonora Vitor Colares (de Fortaleza) foram importados. Um feito.

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