Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Beijo do crepúsculo: a homoafetividade na terceira idade em ‘Suk Suk – Um amor em segredo’

A Vitrine filmes lançou esta semana em cinco capitais brasileiras (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Fortaleza, Aracaju e Palmas) uma produção de Hong Kong cuja estreia se deu na Mostra Panorâmica da 70ª edição do Festival de Cinema de Berlim no ano passado. ‘Suk Suk – Um amor em segredo’ (2019, 38min) tem direção e roteiro de Ray Yeung com inspiração no livro de Travis SK Kong ‘Histórias Orais de Homens Gays Idosos’.  Este é o terceiro longa-metragem do dramaturgo, roteirista e diretor Yeung nascido em Hong Kong com formação em Direito e Artes.

A representação das relações homoafetivas no cinema ganha força no que se passou a denominar de Cinema Queer, a partir dos anos 1990. Por décadas, Hollywood exerceu fortemente a censura aos roteiristas e diretores que se aventuravam no tema, permitindo tão somente uma abordagem sutil e cheia de subterfúgios. Ou, no máximo, caricata e negativa, como no cinema brasileiro dos anos 70. No bojo da produção de filmes com a temática LGBTQIA+ realizados por, para e sobre lésbicas, gays, transgêneros, entre outras orientações que a extensa sigla tenta abarcar, surge também uma miríade de estudos no campo da chamada teoria Queer, representando e trazendo à luz diversas formas de abordagem (positivas) dessa comunidade.    

Filmes sobre a homossexualidade entre homens e mulheres jovens não chegam a ser mais novidades. O que o filme de Ray Yeung acrescenta é o foco de sua narrativa no romance entre dois homens idosos de Hong Kong, a “capital mundial dos “super-ricos”. Pak (Tai Bo), um taxista de 70 anos, casado e vivendo com sua esposa Ching (Patra Au Ga Man) numa relação aparentemente tranquila. Ele é avô de Lei Lei (Pun Chi Sin), uma garotinha simpática a quem, às vezes, leva e busca na escola. Sua filha Fong (Wong Hiu Yee) está se preparando para casar com o jovem Zheng (Hu Yixin). Pak frequenta banheiros públicos em busca de encontros fortuitos. 

Num parque, Pak conhece Hoi (Ben Yuen) também aposentado (65 anos), divorciado e pai do jovem Wan (Lo Chun Ypi) com quem vive na companhia da nora e da neta Grace. Hoi orgulha-se de ter criado o filho sem a presença da mãe. A partir daí Hoi e Pak vão ter encontros amorosos semanais numa sauna gay da cidade. Pais dedicados e orgulhosos de suas famílias, vão encontrar dificuldades para usufruir clandestinamente desse amor. Além de criarmos empatia pelos protagonistas Pak e Hoi, nos identificamos com a conservadora esposa de Pak na sua condição de mulher traída. A dedicada Ching, cuida carinhosamente da família, sempre tentando o controle de suas vidas. Mais do que isso, no entanto, o que ela busca é a atenção do marido ausente. Por sua vez, o metódico e controlador Wang, filho de Hoi, está sempre pronto a repreender o pai. 

Os amantes Pak e Hoi vão encontrar guarida nas reuniões de um grupo de apoio de um Centro de Serviços Comunitários dedicado a reunir gays idosos na luta pela criação de uma casa de repouso, uma espécie de abrigo exclusivo para eles – um espaço onde poderão ser eles mesmos e conviver com “pessoas de mesmo espírito”. Mas as coisas não são tão simples assim. As famílias de Pak (ateu) e Hoi (muito religioso) desconhecem sua orientação sexual. O dilema dos dois é a escolha de viver livremente o seu amor sem abrir mão do convívio e amor da família.

Entre suas influências, Yeung cita o japonês Yazujiro Ozu, sentida em ‘Suk, Suk’ nos planos mais demorados e abertos, com poucos movimentos de câmera e enquadramentos emoldurados por aberturas do cenário. Sua forma de narrar condiz com a mise-en-scène adotada. Os conflitos são da ordem da interioridade, poucos diálogos, ações cotidianas e sem sobressaltos, valorização do silêncio, recursos estes que fizeram a fama mundial de Ozu. ‘Suk, Suk – um amor em segredo’ foge da narrativa com clímax e resolução definitiva. O que permanece no ar é o desejo. 

O jovem diretor Ray Yeung, assumidamente gay, já havia trabalhado a temática homoerótica nos seus outros dois longas: ‘Meninos de manga cortada’ (Cut Sleeve Boys, 2005) e ‘Capa’ (Front Cover, 2015). Aqui os títulos foram traduzidos do original em chinês. ‘Suk Suk’, por exemplo ficou ‘Beijo do crepúsculo’ (Twilight’s Kiss). O diretor saiu com 13 anos de Hong Kong para um internato na Inglaterra. Advogado e com formação em Belas Artes na Universidade de Columbia, passou a escrever peças de teatro e, antes de realizar seu primeiro longa, em 2005, dirigiu diversos curtas-metragens onde exercitou seu estilo sóbrio, reconhecido pela seleção e premiação em diversos festivais no mundo.

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