Nelson Barros

Nelson Barros é psicoterapeuta e escritor.


Ainda Não Acabou…

Nas últimas três semanas, ouvi sobre casos de pessoas infectadas pela Covid19 mais do que ouvi nos meses totais dessa pandemia. Próximas a mim morreram 05.

Aqueles que continuam cautelosos e os que usam a expressão “com o fim da pandemia” estão travando a mesma batalha bicolor (ou seria bipolar?) que dividiu o país entre “mortadelas e coxinhas” em eleições recentes. Agora são “mascarados contra desmascarados”, valendo o simbolismo dessas palavras.

Então, possivelmente, hoje não estarei escrevendo para as pessoas que estão achando que estamos livres do risco, mesmo sabendo que os hospitais estão com seus leitos de UTI chegando ao seu limite de ocupação e que os laboratórios estão congestionados de solicitações de exames.

Assisti a um debate dos candidatos à prefeitura da nossa cidade. Os dois, claramente desinformados (será?) ou não assessorados por autoridades competentes da saúde, defendem que não voltaremos a ter “lockdown”.

Acredito mesmo que essa medida conta com a antipatia de muitos, sobretudo nessa época tão significativa para o comércio. Imagine se encontraria apoio! É a peleja da economia versus saúde. Shopping Centers, bares e restaurantes fechados? E os presentes de Natal, as roupas de festa, as confraternizações?

Daqui a pouco o Brasil inicia um período de farras que só termina dia 17 de fevereiro de 2021, na emblemática quarta-feira de cinzas onde, finalmente, se declara o início do ano. Até então, as confraternizações, festas familiares, Natal, Réveillon, visita dos amigos que moram em outros lugares e vêm para as férias, veraneio em Camboinha e carnaval estarão dominando as nossas vidas cotidianas.
Hoje a gente sabe mais sobre essa doença, mas ainda não o suficiente.

A gente sabe que usar máscaras, lavar as mãos, manter um certo distanciamento físico e evitar aglomerações são atitudes que nos garantem proteção.

Mas a gente não sabe quem vai ser premiado com uma gripezinha ou quem vai ter uma reação inflamatória grave, caso haja contaminação. É roleta russa.

A gente também está cansado.

Eu li uma relação de cuidados que os japoneses estão tomando para conviver com esse vírus. Pra eles vai ser mais simples. É cultural. Alí as pessoas não tem o hábito de se tocar. Não rola nem aperto de mão.

A gente não. A gente gosta de se abraçar, trocar beijinhos, fazer festa com chuva, suor e cerveja, cantar alto, dar muita risada… é gotícula de tudo que é coisa saindo da gente em direção ao outro. E gosto muito de lembrar quando a gente só espalhava mesmo os vírus do amor e da alegria.

Ando sentindo uma falta danada disso. Sábado passado vi minha amiga Ana, que veio aqui deixar um mimo e aconteceu o que tem acontecido: segurar o impulso de trocar um abraço. É quase constrangedor e me dá uma vontadinha de chorar.

Estamos cansados.

Mas quero dizer a vocês que, mesmo cansado, vou aguentar mais um pouco.

E vou fazer um pedido:

Não me chamem, que eu não vou.

Eu não vou em respeito a mim mesmo, a minha mãe que está de “quarenterna” desde março, às famílias das mais de 170 mil pessoas que morreram desde que a pandemia pintou nosso mapa de flutuantes azul, amarelo e vermelho. Festa eu só vou se for pra me jogar, e estamos, como diz Albiege, funcionando em meia voltagem.

A dor do próximo me diz respeito.

Se eu estiver vivo nessas festividades, quero sim, ter a chance de agradecer por estar vivo e, “se Deus quiser”, junto das pessoas que amo. Mas, francamente, acho que essas celebrações deveriam ser delicadas, respeitosas, sensíveis, discretas.

Eu não gostaria que música alta e os fogos de artifício me deixassem indiferente a dor e tristeza de algum vizinho que possa não estar tendo o que comemorar. Todos sabemos como essas datas amplificam a falta dos que já não estão entre nós.

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