Adriana Crisanto

Jornalista profissional (DRT/PB n. 1455/02-99). Especialista em Jornalismo Cultural, mestre em Serviço Social (C.Política) pela Universidade de Salamanca e Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com atuação na imprensa local.


A pandemia da cultura

Entretenimento, lazer, diversão ou cultura o fato é que me coloquei a pensar nos efeitos da pandemia e a forma de consumir esses bens daqui para a frente. Fico pensando como será que os teatros, museus, pubs, festivais, boates, eventos esportivos vão caminhar ou se irão permanecer apenas no “on line” e não mais no presencial por parte das empresas e das pessoas?

Aos poucos vamos vendo os espaços de arte abrirem as portas, os artistas saírem de suas tocas para ir aonde o povo está. Mesmo assim o que tenho sentido por aqui é uma abertura, um tanto tímida, de alguns lugares. Os produtores culturais, que resistem ainda bravamente a essa pandemia, vão ter um esforço dobrado para agradar e trazer esse público de volta. 

Também precisam ter em mente que o comportamento do público não é mais o mesmo e que um evento em lugar “semiaberto” tem gerado pânico e medo em algumas pessoas, sem falar no preço das entradas, que na pós-pandemia deverá aumentar significativamente. É preciso reinventar, mudar, se adaptar a uma série de novidades e desejos que foram postos a prova com a pandemia do Sarscov2. É preciso um olhar humano também e isso as empresas de música, como por exemplo, o Spotify, percebeu de imediato.

Na plataforma de música Spotify, hoje a mais consumida, organiza o repertório em gêneros rock pop, sertanejo, MPB, música católica, música evangélica, mas também pensa nos estados emocionais da pessoa naquele dia, como música para lavar louça, música para dormir e músicas que reflitam sensações como alegria, tristeza, concentração, etc. A experiência sensorial vem de imediato ao seu estado de espírito.

Essa mudança da forma de se escutar música fez como a empresa obtivesse em 2021 uma “patente do processo de análise das emoções do usuário consumidor” recomendando, inclusive, o que você pode escutar a seguir. Nestes dados foram coletados o estado emocional e a análise de maneira de falar e ainda informações contextuais, ou seja, o local onde o sujeito se encontra, se na praça, no parque, em casa, no banho, no shopping, na praia, se está sozinho, viajando ou está grupo.

A pandemia também trouxe, muito forte, para dentro da música os remix. Hoje não importa mais o que está sendo remixado, quem é o autor, qual gênero e significado original. O que interessa mesmo é exibir e ostentar, manipular o conteúdo original tecnologicamente, contanto que isso traga para o indivíduo experiências sensoriais “novas”. Para alguns não interessa se a obra de arte reproduzida se parece com o modo e estilo de Frans Krajcberg, o que vai importar é a manipulação em si, ou seja, não importa se a obra de arte foi reproduzida ou é mais importante que uma selfie.

Sobre pensar as emoções dentro da cultura basta ver o famoso Tik Tok que hoje está linkado as plataformas instagram e facebook. Tudo é imagem e a imagem virou ao mesmo tempo objeto da cultura. É tanto que existem cursos sobre TikTok voltados para negócios e que tem seduzido os profissionais que querem conseguir mais likes e visualizações. No TikTok você não precisa ser bonito, saber falar bem, basta ficar calado e experimentar os diversos filtros e formas de edição dessa imagem capturada. 

A plataforma se tornou uma grande diversão e entretenimento, a começar pelas crianças que não brincam mais de bola de gude, ou pega-pega no jardim, mas a brincadeira e lazer favorito deles é “brincar de TikTok” fazendo dancinha com uma música de Madonna remixada. Não precisa de texto, não precisa ter conteúdo, mas apenas a imagem e a música devem refletir meu estado emocional do dia.

Alguns psicólogos dizem que o apelo nesse tipo de mídia cultural é direcionado para o emocional, para atingir o inconsciente, não o racional. Entramos numa era em que os artefatos culturais midiáticos, as séries longas da televisão também vistas pelo celular, estão sendo mais interessantes do que pagar o preço exorbitante num bilhete de entrada de uma casa de show. Como dizem os psicólogos “tudo se resume a um jogo duplo de dopamina”, em que de um lado estão as ferramentas tecnológicas, aonde posso editar e manipular da minha maneira e fazer minha cultura dá certo, de outro a sociabilidade do riso, do congraçamento, de encontrar pessoas no meio da rua sem medo, sem ansiedade e sem pagar preços altos para me divertir.

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