Leonardo Dantas

Servidor público por precisão, jurista por formação e educador por paixão. É pós-graduado em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas pela UFPB. Contato: leonardodantas09@gmail.com


A lacração como método

Os acontecimentos recentes envolvendo situações do reality Big Brother Brasil (BBB), e toda a repercussão decorrente, emergiram em mim reflexões relativamente antigas, as quais compartilharei com vocês.

Reconheço sim que a sociedade brasileira seja, de uma maneira geral, racista, machista e homofóbica, entre outras discriminações de ordem socioeconômica, religiosa, estética, quanto à origem, etc. Ainda que tenhamos vozes que afirmam o contrário, penso que isso seja perceptível nas sutilezas do dia a dia e compreensível historicamente.

O processo civilizatório brasileiro se deu pela colonização do homem branco europeu e escravização do negro africano e índio nativo. Sabemos disso. O Brasil tornou-se a maior nação católica do mundo. Os negros (e tudo o que deles decorrem) foram marginalizados. A moralidade cristã determinou um rígido código de conduta. A transmissão da cultura, do conhecimento, da ciência e das artes ocidentais foi carregada, ainda que indiretamente, de conceitos e preconceitos que inferiorizam negros, mulheres, homo (bi e trans) sexuais, pobres, nordestinos, pessoas de terreiro, e por aí vai.

Vejo tudo isso com lamento, porém não mais com a mesma fúria da juventude. Entendi, depois de um tempo, que qualquer ideia hegemônica em uma sociedade acaba, de certo modo, por oprimir, marginalizar e excluir grupos e pensamentos minoritários. Brancos já foram escravizados em outros tempos e outras partes do mundo, ao longo da história. Católicos minoritários são perseguidos e violentados atualmente em vários países. O diferente sempre escandaliza em um primeiro momento, ainda que disfarcemos…

Todos nós recebemos uma formação que é própria do nosso lugar e do nosso tempo, com suas belezas e distorções. O pacote vem completo, não tem jeito. Cabe a cada um de nós, como um dever de cidadania, a reflexão crítica permanente sobre esses ensinamentos e comportamentos recebidos, a fim de nos tornarmos pessoas mais evoluídas, humanas, solidárias, tolerantes, etc. Daí falar-se em “desconstrução”.

O humorista Fábio Porchat disse em recente entrevista ser um “racista em desconstrução”, causando algum alvoroço no noticiário. Mas não deveria causar. Ele justificou sua afirmação exatamente nessa cultura brasileira predominante à qual estamos todos submetidos. Nesse sentido, eu também sou um racista, machista, homofóbico, gordofóbico (e tudo o mais), em desconstrução. E não há culpa em ser tudo isso. Não posso me culpabilizar pelo que fizeram de mim. Do contrário, tenho certo orgulho (ainda que seja um dever) do esforço que tenho imprimido pelo aprimoramento de minha humanidade e visão de mundo, em relação a todas essas questões.

Nesse contexto questiono, intimamente, qual a condução mais eficiente perante atos indesejáveis como os que tenho referido.

Isso porque vivemos, com essas redes sociais, o tempo do cancelamento e da lacração. Estamos implacáveis com o erro, reagindo frequentemente de forma mais cruel do que o próprio agravo cometido. A energia da militância, tão necessária e indispensável para promover as mudanças que desejamos, às vezes tem passado do ponto.

Precisamos ter em mente que essa “desconstrução” não se dá da mesma forma nem no mesmo tempo com todas as pessoas. Esse caminho é, infelizmente e inevitavelmente, de deslizes, de transição de mentalidade e de comportamento, com erros e acertos concomitantes. Muitas vezes, uma boa e respeitosa conversa privada promove mudanças maiores do que uma acusação pública e raivosa. Mas o desejo por visibilidade e seguidores às vezes fala mais alto.

Não estou querendo acobertar violações. Há casos e casos. Ocorre que existem muitas, muitas pessoas que reproduzem comportamentos inadequados aprendidos desde sempre, por falta de informação, conhecimento e reflexão. São pessoas boas, mas que não estão tendo a oportunidade de se desconstruir, como tiveram outrora os ativistas lacradores de hoje… Muitos militantes não se aproximam para dialogar, mas para a militar, ou seja, para selecionar inimigos e fazer guerra. E assim vão se desperdiçando futuros companheiros de luta… Parece até que novos adeptos são vistos (inconscientemente ou não) como novos concorrentes… É preciso dar uma chance para o inimigo. Dar a ele uma oportunidade de mudança e conscientização. Mas parece que estamos mais sedentos pela condenação sumária, sem direito à defesa…

Essa obsessão pela lacração pode chegar ao ponto, até mesmo, de enxergar (com boa ou má-fé) discriminação onde não há. Costumo ouvir que “racismo está em tudo”. E está de fato em todas os espaços de convivência social: em casa e no trabalho, na escola e na faculdade, entre amigos e amantes, na rua, no metrô, no cinema, no restaurante, no parlamento e na bodega. Em tudo. Mas isso não quer dizer que tudo se explica pelo racismo. Se atitudes racistas negam oportunidades de trabalho a pessoas negras, não significa que sempre que elas não forem aprovadas em uma seleção de emprego, estarão sendo discriminadas, porque os motivos podem ser outros e legítimos, como a experiência profissional, o currículo, a capacidade de comunicação, a facilidade para o trabalho em equipe ou tantas outras.

Ainda, é preciso dizer o óbvio: há pessoas negras e arrogantes, e outras brancas, humildes e justas. Nem todo negro é bom e nem todo branco é opressor. Há gays intolerantes e preconceituosos, assim como héteros evoluídos, abertos e generosos. Há padres santos e pedófilos. O mesmo pode-se dizer dos babalorixás. No outro extremo, também não está certo agir com preconceito contra homens, brancos, héteros, ricos, magros, cristãos, etc. Às vezes é necessário conhecer mais do que a superficialidade para emitirmos julgamentos. Mas o espírito lacrador não tem essa paciência e essa prudência, essa maturidade e sabedoria. O espírito lacrador vigia e espera mesmo é o erro, a falha, para dar o seu show, mais disposto em fazer-se herói, do que em resolver propriamente o problema.

Na casa do BBB estamos assistindo participantes negros (declaradamente militantes) agindo com crueldade e violência psicológica contra outros, negros e brancos, na disputa pelo prêmio milionário, ocasionando até um abandono da competição. A reação das vítimas tem sido muito tímida, por medo do cancelamento do público, por medo de serem tachadas de racistas. As abusadoras negras têm se aproveitado disso, insinuando discriminação racista de quem quer que se volte contra elas, encontrando (quando não, criando) situações para intimidar os outros e mostrarem-se mais poderosas perante os concorrentes. Utilizam-se dessas pautas, tão sensíveis e importantes, para atingir objetivos pessoais, forçando uma distorção da percepção da realidade nas outras pessoas, que passam a desconfiar do que os seus próprios olhos veem e seus ouvidos ouvem.

Toda essa situação tem causado decepções e confusões entre os ativistas que acompanham o reality, muitos afirmando que elas não têm sido, verdadeiramente, militantes. E eu concordo. Mas afirmo também, com sincera tristeza, que essa postura “lacradora implacável” tem sido método utilizado por muitos outros, estimulado e adotado por grandes líderes dos movimentos. Assim eu vejo.

E vejo com preocupação, porque penso que o método da lacração prejudica a legitimidade dessas lutas. Macula a justiça e a integridade do debate perante os olhos da sociedade. E, sem o reconhecimento e respaldo da população em geral, tudo fica mais difícil.

Mais do que cancelamentos e guerra, precisamos de conscientização e paz.

 

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