Angélica Lúcio

Angélica Lúcio é jornalista, com mestrado em Jornalismo pela UFPB e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Atualmente, atua na Comunicação Social do HULW-UFPB/Ebserh como jornalista concursada.


A jornalista que descansa enquanto carrega pauta

“Enquanto descansa, carrega pedra”, diz o ditado popular. Infelizmente, mal percebemos, mas estamos o tempo todo assim: sempre a executar uma atividade atrás da outra. Nem sequer a pandemia nos obrigou a dar uma parada. Ao contrário, pelo que vejo nas redes sociais, tenho a impressão de que nossa sofreguidão e a pressão por sermos produtivos até aumentaram nos últimos meses. Curso, live, reunião on-line, nova pauta… tudo em fluxo contínuo de tarefas.

Não estou livre disso, infelizmente. Tento descansar, nos momentos que deveriam ser de ócio, mas a coceirinha da produtividade sempre aparece. Não é uma urticária necessária, mas se bobeio, pego-me lendo livros de comunicação ou vendo documentários sobre jornalismo, quando deveria, talvez, estar maratonando uma série sem compromisso – ou melhor, em que o compromisso fosse apenas com a fruição e o bel-prazer.

Sejamos hedonistas, docemente hedonistas! Esse deveria ser o mantra quando a mente e o corpo encerrassem a jornada de trabalho. Mas não! Sempre calhamos de inventar algo a preencher nosso tempo: curso gratuito o sábado inteiro? Queremos! Tem newsletter interessante no e-mail, mas que não demos cabo durante a semana? Opa! Talvez o domingo seja um bom dia para colocar a leitura em dia. Será mesmo? Ou é hora de parar um pouco e tentar respirar? Ar puro de preferência.

Fiz isso no domingo passado, crente que daria certo. Convenci meu marido a sair de casa (claro que utilizando máscara e mantendo o distanciamento necessário à prevenção a covid-19) e seguimos para a Bica (o Parque Zoobotânico Arruda Câmara). Eu tinha necessidade de ficar perto das árvores. De sentir o cheiro da mata.
Plano elaborado, garrafinha de água cheia, máscaras no rosto, tudo certo! Entramos na Bica e começamos a caminhar pelo local. Vai ser um passeio legal, pensei. E foi, de fato. Apesar da pedra no meio do caminho, como bem sabe o poeta. Sim, a pedra, digo, a pauta estava lá. Melhor dizendo: as pautas. E eu não consegui ignorá-las.

A primeira delas apareceu quando ouvi uma criança falando, toda animada, para os pais: “Cadê o leão? Quero ver o leão!” O leão da Bica e seu olhar de desalento são para mim o retrato mais cru da tristeza que é um zoológico. Ver todos aqueles animais presos sempre me faz mal. Pássaros, macacos, antas, tantos bichos engaiolados e… para quê mesmo?

Mas a Bica, com todo aquele verde, ainda me parece um lugar agradável. Tento ignorar o que vi/ouvi e sigo o passeio. Poucos passos depois, outra pauta bate na minha cara. Vejo tapumes estragados e fico encucada: mas a Bica não foi reformada há pouco tempo? Por que tanto descaso e abandono? Encontro uma placa e identifico que os tapumes deveriam estrar protegendo a recuperação da Fonte Tambiá, tombada em 1948 pelo Iphan.

Em outra placa, obtenho alguns detalhes. A obra seria para “Intervenção Arqueológica, Requalificação Paisagística e Restauração Arquitetônica e Funcional da Antiga Fonte Tambiá”, dado um “compromisso” firmado pela Alphaville Paraíba Empreendimentos Imobiliários em decorrência da implantação de um loteamento da marca em Bayeux. Obra parada? Check! Obra parada que deveria estar sendo financiada (executada?) por uma empresa que fez algo errado e deveria estar se redimindo? Check!

Para me desligar dessa pauta, convidei meu marido a seguir uma trilha. No meio do caminho, claro, tinha outra pedra. Drummond poderia ignorar, mas também veria o coreto (ou aquilo é um mirante?) todo pichado e com várias rachaduras. Pauta? Check! Mais adiante, encontramos vários sacos vazios de cimento em meio às árvores. Ainda resíduos da obra de requalificação do parque? Indago a mim mesma. Além disso, havia garrafas plásticas, embalagens de salgadinhos, latas de refrigerante vazias, colherzinhas de sorvete… na trilha e em vários locais. Pauta? Check!

Anunciada pela gestão anterior da Prefeitura de João Pessoa como a “maior requalificação da história da Bica”, a obra custou aos cofres públicos o montante de R$ 8,3 milhões. “Tá passada?”. Eu estou! Principalmente porque, ao buscar um lugar para descansar, me deparei com um parque que ainda exige muito, muito cuidado e atenção. Em tempo: a terceira etapa da reforma foi entregue somente há poucos meses, em dezembro passado… Pauta? Check!

 

angelicallucio@gmail.com

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