A agulha e a linha: uma releitura

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Esses dias, relembrei um conto que lera na época de ensino médio, escrito por Machado de Assis, que tratava da discussão entre uma agulha e uma linha, dentro da caixa de costura. A moral da história fazia analogia ao professor que lamentava que seus alunos, ao atingir o estrelato em suas vocações, esquecessem-se de quem os preparou para aquele status. Por um lado, a linha só cose porque a agulha fura o pano; por outro, a agulha só fura o pano porque há uma linha para coser. Uma tarefa não dispensa a outra.

Como professor de música, me sinto “agulha” sempre que vejo um aluno meu se destacar em algum projeto, imaginando os caminhos que o ajudei a trilhar. Às vezes, me sinto o professor do conto, que lamenta ter “servido de agulha a muita linha ordinária”, quando me sinto esquecido pelos alunos que preparei. Mas me dou conta de que meu lugar é na caixa de costura e que eles têm mais é que desfilar nos bailes da vida.

Não vou cobrar gratidão. Não me cabe. Gratidão é algo que tem que ser espontâneo. Nada mais constrangedor do que ver uma mãe, por exemplo, obrigando o filho a agradecer por algo que recebeu. O menino nem pensava nisso, e vai dizer um “obrigado” com sorriso amarelo, apenas para cumprir um protocolo da sociedade.

Meus alunos, idem. Quando quiserem me ser gratos, o sejam. Eu também sou grato por tê-los conhecido e partilhado o que tenho de experiência e conhecimento. Volto para minha caixa de costura, entendendo que a linha que está no vestido tem mais é que rodopiar pelo salão mesmo.

No entanto, a releitura me chamou a atenção para outro ponto do texto. O debate no conto em questão é entre a agulha e a linha que permanece no novelo; não a que já está no vestido finalizado. Esta última é quem vai desfilar o modelito nos bailes. Uma grande parte da linha permanece no carretel, e se orgulha de um feito que não conquistou. E é nesse ponto que reflito o nosso panorama cultural atual.

A linha que está no carretel precisa entender que poderá ter um destino completamente diferente daquela, e não se sentir a rainha do baile pelo mérito alheio.

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