Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Festivais se fundem para homenagear o conterrâneo velho de guerra Vladimir Carvalho

A Paraíba está entre os estados do Nordeste que têm o maior número de festivais no interior. Isso se deve, creio, às diversas ações promovidas estado adentro como o ViaAção Paraíba, o Cinema Adentro, o Parahyba Cine Senhor, o Jabre – Laboratório para Jovens Roteiristas, entre outros, que sensibilizaram ativistas culturais a difundir o cinema em suas cidades que nunca tiveram sequer uma sala de exibição ou que, nas que existiram, foram desativadas. É um público que teve só acesso ao cinema pela televisão, contaminada de blockbustersI estadunidenses, ou num contexto recente, através da internet.

Para resgatar o prazer de uma sessão coletiva, os festivais de cinema se multiplicaram. Frutos de um esforço individual ou de pequenos grupos, eles ganharam força nos últimos dois anos com os editais emergenciais de cultura e, particularmente na Paraíba, com um edital específico para tais eventos: o da Cagepa – Companhia de Água e Esgotos da Paraíba, através de edital lançado para apoio às Mostras e Festivais do Estado da Paraíba, por meio da Secretaria de Cultura, com a utilização da Lei Rouanet, Secretaria Especial de Cultura e Ministério do Turismo.

São os casos do Cine Paraíso, na sua quinta edição, e do Cine das Almas, que realiza sua primeira edição na terra de um dos maiores documentaristas brasileiros, Vladimir Carvalho, e, por adoção, do seu irmão, fotógrafo e diretor Walter Carvalho. Os dois festivais, em uma ação entre amigos, homenageiam o “conterrâneo velho de guerra”. O Cine das Almas acontece entre os dia 04 e 06 de abril, em Itabaiana, seguido pelo Cine Paraíso, em Juripiranga, de 7 a 9, cidades do Vale do Paraíba, localizadas a mais ou menos a 85 km da capital.

Um festival de cinema na terra natal de Vladimir Carvalho vem cumprir uma sentença do destino. Vladimir sempre se orgulhou de suas origens e, não raro, nos deparamos com suas histórias vividas em Itabaiana e contadas pelo cineasta com uma riqueza de detalhes e entusiasmo que impressionam. Num formato híbrido (online e prsencial), os dois festivais terão a honrosa participação de Vladimir, infelizmente, à distância. Com uma filmografia extensa, iniciada como roteirista e diretor assistente em ‘Aruanda’, Vladimir inscreveu seu nome na história do cinema documental brasileiro com os clássicos ‘O País de São Saruê’ (1971), ‘O Homem de Areia’ (1982) e ‘Conterrâneo Velho de Guerra’ (1991), entre os 21 filmes de curta, média e longa-metragem que realizou como diretor desde 1962.

Cinco curtas-metragens de Vladimir Carvalho serão exibidos em sessões itinerantes nas duas cidades: ‘Romeiros da Guia’ (1962). ‘A bolandeira’ (1967), ‘Quilombo’ (1975), ‘A pedra da riqueza’ (1976) e ‘Pankaruru: de brejo dos padres’ (1977), filmes emblemáticos da carreira do diretor. Com um olho na formação de novos documentaristas na Paraíba, estado de longa tradição documental, o V Cine Paraíso está oferecendo a oficina Documentando a ser ministrada pelo cineasta pernambucano Marlon Meireles visando familiarizar o público com a linguagem e a prática documental.

O Cine Paraíso, uma iniciativa estóica de João Paulo Lima, distribuiu os filmes selecionados em três mostras: Mostra Panorama Nacional, com 11 curtas; Mostra Paraíba, com oito concorrentes;  e a Mostra Infanto-juvenil, com cinco curtas, entre eles duas animações. Por sua vez, o Cine das Almas, sob a coordenação de Edglês Gonçalves, apresenta nesta sua primeira edição quatro mostras: Mostra Acunhe, com 11 curtas; Mostra Oxe, com nove; Mostra Curupira, com cinco filmes; e a Mostra Cine das Almas de gênero terror e suspense, com quatro representantes, entre eles o paraibano ‘Rasga Mortalha’, de Patrícia de Aquino. 

Insisto em enfatizar a importância dos festivais como eventos que não só colocam em contato o público do interior com o cinema local e nacional, oferecendo uma diversidade de temas, de linguagens e de narrativas, mas também contribuindo para a formação de futuros realizadores através de suas oficinas e palestras. Sem contar que um festival quando patrocinado por verbas públicas, por exemplo, movimenta a economia local com a presença de realizadores, oficineiros, palestrantes, jurados, etc, ocupando pousadas e restaurantes, enfim, gerando emprego e renda, mesmo que em pequena proporção, sobretudo em cidades sem forte apelo turístico. Que vivam os festivais de cinema!

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