Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I
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‘Calvário’: no jornalismo, é exigida a imparcialidade, no documentário, a ética 

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O título desta coluna é uma resposta a um comentário de um suposto blogueiro paraibano sobre a minha parcialidade no documentário ‘Calvário’ (2021), dirigido por mim e lançado presencialmente nessa quinta-feira, 25, e agora disponibilizado no canal de Márcia Lucena no YouTube. A parcialidade revela-se na minha simpatia pela personagem, minha cunhada, e empatia por seu sofrimento na luta por justiça na Operação Calvário, reconhecida como um braço da Lava-Jato por seu modus operandi.

Esteticamente falando, não se espera imparcialidade na abordagem documental de um determinado aspecto ou evento da realidade e seus personagens. A narrativa documental, como qualquer outra, inclusive o jornalismo, é um construto por onde perpassa o viés da subjetividade. A diferença fundamental é que na ética do jornalismo espera-se o máximo  grau de imparcialidade possível. Reconhecemos, todavia, que é algo difícil de se atingir em sua plenitude. Mas também enxergamos que todos os esforços devem ser agenciados para este fim. Por sua vez, do documentário espera-se que seja ético em relação aos seus personagens, atores sociais e históricos.

Já escrevi um artigo acadêmico sobre o assunto que foi publicado na Aniki, Revista Portuguesa da Imagem em Movimento, em 2016, de onde transfiro algumas ideias para cá. O conceito de documentário é um chão movediço e controverso que tem mobilizado realizadores e teóricos do cinema ao longo das últimas décadas. O teórico Fernão Ramos constata uma tendência entre os cineastas contemporâneos de embaralhar as fronteiras entre os gêneros documental e ficcional como uma forma de afirmação de uma inventividade e ruptura ao negar normas consolidadas num domínio considerado tradicional.

Desta forma, estabelece-se um vale-tudo no campo da representação documental onde a estética se sobrepõe à ética, liberando o realizador, no momento de indexar sua obra, de qualquer compromisso com o espectador, que fica à mercê de frequentes logros e sem um referencial confiável para a fruição da narrativa apresentada. No documentário ‘Calvário’, atendi ao convite da personagem Márcia Lucena, presa em dezembro de 2019 e monitorada desde fevereiro de 2020, para registrar o sofrimento infligido a ela, injustamente, pelas ações da “Operação Calvário”. 

O documentário dá voz plena à personagem para narrar a sua saga. O modo de representação adotado pelo autor/diretor é o da participação. A personagem Márcia fala para a câmera ao longo de quase todo o percurso da narrativa. Esse modo de abordagem se tornou a tônica dos documentários produzidos a partir dos anos 1960 com a captação sincrônica de som e imagem, inaugurada pelo grupo do cinéma vérité (depois chamado de cinéma direct) capitaneado por Jean Rouch. É a ética do encontro onde a palavra é facultada aos personagens do documentário.

‘Calvário’ tem o depoimento de Márcia Lucena como condutor de sua narrativa e segue a ordem cronológica dos acontecimentos que a envolveram de forma inesperada. Nenhuma pergunta foi necessária pelo diretor. A curiosidade do espectador é a de atentar para o evento seguinte a ser narrado e chegar ao desfecho da história. Cabe ao público estabelecer uma certa empatia com a protagonista. Sua fala tem muito de factual no sentido de que o que ela diz pode ser verificado. No entanto, como em qualquer relato, sobretudo o de uma história pessoal vivida quase em simultaneidade com as filmagens tem sua carga de subjetividade.

A tônica na subjetividade também faz parte da narrativa documental não só nos documentários autobiográficos, aqueles onde o diretor narra sua própria história envolvendo relados do passado, embrumados pela memória, e também do presente. Em ‘Calvário’ optamos por entremear o relato de Márcia com suas poesias recitadas por ela tendo como trilha sonora a composição ‘Le monde des brutes’ (que coincidência, ‘o mundo dos brutos’) composta pelo franco-paraibano Didier Guigue, muito antes da ideia do filme, e doada gentilmente pelo autor.

Como uma ação entre amigos, a fotografia, montagem e finalização do documentário teve o engajamento de Rodrigo Barbosa, graduado em publicidade e se iniciando na linguagem documental. A concepção foi a de representar esses momentos sombrios da vida da personagem com cenas de chuvas e de um mar nublado em contraponto ao seu cotidiano com a família (Nanego e João, companheiro e filho apenas, pois Flora sua filha vive no exterior) com momentos de descontração e ócio criativo.  Entendemos que, com esta ação, estamos cumprindo a missão se engajar nessa luta pela liberdade de Márcia. 

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