Onivaldo Júnior

Onivaldo Júnior é formado em Jornalismo e Música pela Universidade Federal da Paraíba, com mestrado em Educação Musical também pela UFPB. Professor particular de canto, professor de Artes em duas escolas do Município de João Pessoa e maestro do Mosaico Coral.


Uma forte lição junina sobre empatia

Viralizou essa semana, nas redes sociais, um vídeo de aproximadamente sete minutos contendo uma apresentação forte de uma quadrilha junina do estado do Ceará. O grupo “Girassol do Sertão” fez uma apresentação mista de dança, canto coral e teatro, fazendo alusão a temas contemporâneos envolvendo a falta de empatia – aquilo que nos faz sentir a dor do outro e nos compadecer por eles – na sociedade atual.
Antes de escrever esse texto, fui procurar a versão completa da apresentação e encontrei no Youtube, com uma sonorização prejudicada pelos equipamentos amadores e a imagem balançando por conta do vento onde a câmera estava posicionada – essa explicação é dada na descrição do vídeo.
A apresentação começa com dois banners cheios de notícias a respeito de crimes homofóbicos e transfóbicos, além de outras denúncias sociais. O título traz a hashtag “Minha Manifestação Cultural Também É Política”. Quando os banners se abrem, os dançarinos, com roupas comuns, fazem alusão à violência doméstica, machismo e influência midiática.
Vestidos com roupas nas cores da bandeira brasileira, os dançarinos cantam, em coro, a música “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, aliando o canto com um balé coreografado por Cíntia Freitas, artista transexual que lidera a quadrilha Girassol do Sertão. Na sequência, uma outra cena, em que manifestantes são presos por expressarem sua indignação faz alusão às arbitrariedades da ditadura militar, seguidos de coreografia da música “Alegria Alegria”, de Caetano Veloso.
A apresentação segue com o tradicional “casamento matuto”, que chama atenção pelos casais de padrinhos com suas diversas configurações (heteronormativos ou não). A partir daí, o que se vê é um espetáculo de coreografia, muito bem ensaiado e sincronizado, de impactar quem assiste e arrancar aplausos da plateia. São diversas músicas, como “Vida Boa Aperreada”, de Amazan, “Meu País”, de Livardo Alves, e “Pedras que Cantam”, de Fagner, entre outras.
A partir dos 30 minutos, a quadrilha dá um soco no estômago de sua platéia ao entoar “Geni e o Zeppelin”, de Chico Buarque, mostrando a cena de uma travesti que apanha até a morte por três homens, que, em seguida, depositam seu corpo num carro de mão, alusão direta ao assassinato da travesti Dandara dos Santos, em 2017. A intérprete da “Dandara” na cena é a própria Cíntia, que, no final, ressurge sobre um praticável, como que ressuscitada – após um novo coro, da música “Não Recomendado”, de Caio Prado, que ainda critica o preconceito contra pessoas gordas, negras ou mães solteiras.
Na cena da “ressurreição” de Dandara, Cíntia grita “Dandara presente! Parem de nos matar! Eu sou Cíntia Freitas, sou mulher trans, e também não sou recomendável na sociedade!”, brado seguido de um solo de rodopios por todo o ginásio onde a apresentação se desenrola, finalizando com outro clássico de Chico Buarque, “Apesar de Você”.
Já são três vezes em que assisti a esse vídeo. Não consigo conter as lágrimas. Me envergonho dos rumos que nossa sociedade está tomando, em punir as pessoas por não aceitar sua diversidade. Ainda bem que a Arte cumpre seu papel de mostrar a hipocrisia e a intolerância presentes em nosso cotidiano. Agora, resta-nos a esperança de que a apresentação provoque a reflexão em quem assistiu e, tenhamos, enfim, uma sociedade mais empática. Utopia? Talvez. Mas nós, artistas e minorias, seguimos na luta.
Uma forte lição junina sobre empatia

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