Nelson Barros

Nelson Barros é psicoterapeuta e escritor.


The Book Is On The Table

Esses dias precisei ir numa livraria. Não estava procurando por nenhum livro especificamente, já vou dizendo, antes que alguém me lembre o fato de estarmos vivendo uma pandemia, que não é recomendável se expor e que posso comprar livros pela internet. Mas eu precisava entrar numa livraria. Calculei a hora que poderia estar com pouco movimento (como se fossem lugares que concentram aglomerações!), escolhi máscara segura, tubinho de álcool e fui. Não tinha quase ninguém. Refiro-me a leitores, claro. Só uns poucos vendedores e eu. Que maravilha! Aquelas prateleiras horizontais cheias desse objeto mágico. Peguei num e noutro, senti a textura das capas, a qualidade do papel. Folheei apressadamente, para que o ventinho provocado trouxesse às minhas narinas o perfume, aquele que apaixonados por livros sabem do que estou falando, e nesse momento, confesso, levantei a máscara, discretamente, mas com a sensação de estar cometendo um ato libidinoso em lugar público. O coração aos pulos. Acho que ninguém viu. Embora com medo de que essa cena vazasse em algum canal, onde apareceria flagrado pelas câmeras ocultas do local.

– Posso lhe ajudar em alguma coisa? A vendedora perguntou, ao meu lado, me trazendo de volta à realidade. Por um momento pensei que ela poderia achar que eu estava passando mal. Olhos semicerrados, respiração profunda. Antes que respondesse que era apenas êxtase, já imaginei a moça chamando uma ambulância, até a ficha cair de que ela apenas queria me oferecer ajuda, na procura de algum titulo.

– Esse aí é muito bom. Tá vendendo bastante.

Só então vi o título direito. Era um livro de autoajuda que anda muito comentado.

Larguei o objeto e dei risada de mim. Tinha aspirado, de maneira quase erótica, um livro que ensinava como entrar no fluxo do universo e alcançar prosperidade. O medo de que aquela cena tivesse sido gravada pelas câmeras de segurança aumentou ao quase pânico. Tivesse sido um Machado de Assis, Walt Whitman, Margueritte Yourcenar, Fernando Pessoa, Rachel de Queirós, Lygia, Adélia, Mia… mas não. E nem vi o nome do autor. Cheirei, em público, um completo desconhecido. Nem lembro do último carnaval de Olinda onde fiz isso. E, naquela ocasião, eu tinha umas cervejas para botar a culpa. Nesse caso, só mesmo uma forte síndrome de abstinência justificaria tal ato.

Um pouco envergonhado, deitei o livro de volta à prateleira e decidi continuar o passeio. Foi quando me dei conta da quantidade de livros dessa natureza por ali.

– Viver tá muito complicado, mesmo. Pensei em voz alta.

Tinha manual de instrução pra tudo que se possa imaginar. Prosperar, arranjar marido, se manter jovem, evitar alzheimer, fazer dieta, melhorar o desempenho sexual, viajar sem gastar muito, arrumar a casa, render nos estudos. Tudo fundamentado no “feng shui”, na psicologia comportamental, no budismo, na física quântica e nos conselhos de vovó Donalda. Não pode dar errado, né?

Lembrei da primeira vez que vi um desses livros. Encontrei, numa pilha deixada na calçada, um exemplar de “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”. O autor chama-se Dale Carnigie, e parece que ainda hoje é vendido. Lembro que na época pensei:

– Como alguém pode precisar um livro que ensina a fazer amigos?

Mesmo sendo eu um garoto tímido, tinha meus amigos, feitos de modo muito natural e espontâneo. E aquele “influenciar pessoas” não me “cheirou” nada bem. Risos.

Depois lembrei de um outro que a minha mãe tinha. Esse, ensinava moças a se comportarem adequadamente. E o motivo principal era transformá-las em boas esposas. Esse protótipo dos livros de autoajuda ainda hoje traz mulheres ao meu consultório. Gerações e gerações, cujos maridos querem sexo, mas que foram ensinadas a não abrir as pernas. A conta não fecha, né?

A minha pequena aventura na livraria continuou mais serena. Logo encontrei lindas versões atualizadas dos clássicos que amo, capas duras com gravuras em relevo, livros de poesia, os de culinária que tanto gosto. Livro é pra sonhar também. Fui escolhendo alguns, inclusive uma versão de Dom Quixote em dois volumes, pesando quase um quilo cada. Um outro de etimologia, que adoro. Alguns que estou querendo ler, de tanto que os amigos falam, outro para presentear.

Feliz com a minha pilha, me dirigi ao caixa.

No caminho, deparei de volta com o desconhecido que funguei tão despudoradamente. Tive a impressão de que ele olhou pra mim, com aquela cara de “eu vi o que você fez no verão passado”. Não tive dúvidas: Depositei dois quilos de Dom Quixote em cima dele. Aquilo poderia sufocar facilmente um elemento de pouco mais de cem páginas, sobretudo alimentado com conteúdo de substância bem rala.

– Pelo menos é uma morte digna.

Ainda pensava nisso quando a moça perguntou:

– Débito ou crédito?

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