Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I
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Sem Perdão: crimes de abusos sexuais de igrejas são abordados em filmes na Netflix

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Dois documentários de longa-metragem contundentes, disponíveis na Netflix, tratam de crimes praticados continuamente pela Igreja Católica (historicamente, a mais acusada dessa prática) e pelas igrejas neopentecostais, neste caso, uma igreja mexicana. ‘No caminho da cura’ (EUA, 2021, 1h48min) e ‘Os escândalos na Igreja A luz do Mundo’ (2023, 1h53min) falam de crimes de abusos sexuais amiúde jogados para debaixo do tapete, pelo menos até recentemente.

Em ‘No Caminho da cura’, direção de Robert Greene, são seis homens de meia idade (Ed Gavavan, Dan Laurine, Joe Eldred, Miachael Sandridge, Mike Foremane Tom Viviano) que decidem enfrentar suas dores e seus algozes nos tribunais e num registro documental que utiliza como recurso de abordagem a dramaterapia, técnica de uso de encenação teatral de momentos traumáticos da vida passada que vai possibilitar o paciente a encará-los em busca de uma cura. Neste documentário, Greene propõe aos seus personagens a reviverem ações em locações reais ou construídas para encenarem suas histórias.

Encenações nas quais o diretor imprime uma grande carga dramática, a exemplo da cena inicial, quando o ator mirim Terrick, que interpreta um dos garotos abusados, deixa cair por acidente o incensador provocando a ira do padre abusador. Conhecemos nossos personagens, todos homens maduros, desse drama real logo depois dessa cena num encontro com a dramaterapeuta Monica Phinney e a advogada Rebecca Randles, que se ocupou de mais de 400 mil casos de abusos infantis na cidade do Kansas, certamente não todos da Igreja Católica.

O tratamento de ‘No Caminho da cura’ envolve todos os personagens no seu processo, incluindo a decisão de encenação de seus traumas com a dramaterapia. No entanto, o diretor não abre mão de depoimentos para a câmera, tão comum no cinema direto com seu modo de abordagem participativa/interativa do real. Aqui, no entanto, neste encontro com seus personagens, o diretor não aparece colocando questões. Os personagens relatam suas expectativas em relação ao processo de filmagem e ao processo judicial aberto contra a Igreja Católica, além de discutir, durante as encenações, os traumas que vivenciaram na infância com os sucessivos abusos de sacerdotes. 

Um recurso interessante de encenação é proposto pelos personagens, o de roteirizar suas próprias experiências traumáticas com padres pedófilos, o que enriquece a narrativa do documentário filmado na cidade do Kansas.  Na impossibilidade de terem como cenário as locações reais dos eventos (diga-se por proibição da própria Igreja), o grupo busca por locais que sirvam de disparador de suas memórias, chegando a construir cenários em estúdios para encenar seus traumas com os clérigos católicos.    

 ‘Os escândalos na Igreja A luz do Mundo’ não utiliza estratégias criativas de abordagem como estão presentes em ‘No caminho da cura’. O documentário estadunidense é bem mais rico e inventivo do que o do mexicano Carlos Pérez Osorio. No entanto, este documentário sobre os abusos sexuais de três gerações de líderes da mesma família choca pelo apelo emotivo das falas das mulheres abusadas. A igreja A Luz do Mundo chegou a ter cinco milhões de seguidores em 58 países e 15 mil templos com a liderança do autodenominado “apóstolo” Naasón Joaquín Garcia. 

Herdeiro natural do pai e avô, Garcia foi preso na Califórnia por acusações de estupro, pornografia infantil e abusos sexuais. Mesmo assim, continuou como líder espiritual da igreja. Ele dizia que o título de “apóstolo de Jesus Cristo” foi dado por Deus e era vitalício. Com toda essa autoridade, o criminoso forçava as fiéis a satisfazer suas taras sexuais, sempre com o mesmo modus operandi dos clérigos da Igreja Católica que usava o temor ao poder de Deus para chantagear os garotos. 

No documentário de Pérez Osorio, são cinco mulheres que sofrem o calvário do abuso e da denúncia com a reprovação violenta dos fiéis e a rejeição de suas próprias famílias. Seus nomes reais não são revelados. O grupo é alcunhado de Jane Doe dado a vítimas que querem permanecer anônimas durante o processo (Jane Doe 1,2,3, 4 e 5). A cena do tribunal com seus testemunhos carregados de emoção é o ápice dessa narrativa. O anúncio da condenação do “apóstolo” é decepcionante. Um arranjo judicial redunda num presente divino para o malfeitor. Ambos os filmes carregam ironia em seus títulos originais: ‘No caminho da cura’ é ‘Procissão’ e ‘Os escândalos na Igreja A luz do Mundo’ é ‘A obscuridade de A Luz do Mundo’. 

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