Marco Lima

Marco Lima tem graduação em Educação Artística, com habilitação em Música, Especialista em Educação Infantil e Mestre em Serviço Social (UFPB), tendo como área de Pesquisa a Educação Inclusiva de Pessoas com Deficiência Visual. Atua como Professor de Música no Instituto dos Cegos da Paraíba Adalgisa Cunha. Presidente da Federação Espírita Paraibana, foi co-fundador do Grupo Acorde.


Se estiver com saudade pode chorar!

Por Rossandro Klinjey

É assim. Durante muitos anos, olhamos aquele rosto todos os dias, Alguns dias é uma rosto que não queremos ver, outros dias é um rosto que ansiamos por enxergar. Ouvimos aquela voz por toda uma vida. Em alguns dias essa voz parece áspera, noutro dia uma melodia suave. Tocamos aquelas mãos, trocamos confidencias. De tanto conviver, sabemos antecipar cada gesto, falas. Desenvolvemos uma cumplicidade de tal forma que, apenas com um olhar, sabemos exatamente o que aquela pessoa nos deseja dizer. Essa pessoa pode ser um pai ou uma mãe, um filho, ou filha, avô, prima, um grande amigo, um grande amor, enfim alguém que aprendemos a amar. Um dia, as vezes, sem que sequer sejamos avisados, eis que surge um hiato, uma separação nesse convívio, porém jamais um ponto final. A esse hiato, a essa separação damos o nome de morte. Nome estranho para um fenômeno da vida!

Quando isso acontece, abre-se uma fissura dentro de nós, e a dor e a saudade são sentimentos completamente compreensíveis.  O pranto ante a imagem agora inerte daquele ser amado nos constrange, nos oprime, às vezes nos desespera. Por isso mesmo choramos, como se quiséssemos regar novamente a vida física ou denunciar o vazio que se faz presente nesse momento. Diante de tamanha dor, o tempo de sofrer é de cada um, e não nos cabe dizer: -está bom, você já chorou demais…

Se alguém chora do nosso lado, confortemos, não cobremos.

Mais do que frases feitas os enlutados precisam de gestos e, muitas vezes, o gesto mais sublime é o nosso silêncio respeitoso.

Às vezes, na tentativa de ajudar, nos equivocamos profundamente com nossos comentários clichês: “foi melhor assim para seu Pai”: “sua mãe está melhor do que nós”: “você tem que superar”: “pare de chorar, você tem você ainda tem outros filhos”, Ah! Se fosse tão simples assim! Um comando e pronto, as lágrimas secavam, o sorriso se abria, e restava apenas um memória alegre. Não, definitivamente não é tão simples assim. A forma como cada um de nós expressa a sua dor é única, por isso respeitemos.

Você pode estar triste agora, mas a saudade revela algo mágico, deixa claro que aquele que partiu cumpriu sua missão. Se você estiver com saudade, pode chorar! Se quiser ver essa pessoa novamente se olhe no espelho, pois com certeza você é um pouco dela, pois somos muito das pessoas que amamos. Se quiser ouça a música que ele ou também se lembre dos momentos alegres, cômicos talvez. Lembre daquele dia em que ele ou ela escorregou e caiu na frente de todos numa festa, daquela piada contada tantas vezes que você já sorria da falta de graça, daquele aniversário inesquecível, daquela conversa decisiva, daquele conselho preciso, enfim dos momentos bons e então reveze o choro com um sorriso de agradecimentos por todos esses anos juntos.

Experimente todos esses sentimentos antagônicos juntos. Só não se cale, só não se feche, só não finja que está tudo bem, só não se dope, viva essa “morte” com toda sua vida. E lembre-se, o Deus que nos permitiu viver com esse ser amado é o mesmo que chama de volta para nos anteceder na grande viagem que um dia também faremos. E quando chegar o dia de também realizarmos essa viagem, certamente nos encontraremos para continuar, depois desse hiato, nossa história, olhar novamente nos olhos e chorar, mas não de tristeza e ouvir novamente aquela voz suave que nos dirá: seja bem-vindo!

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