Sarney descarta renúncia, se defende e diz que vai cumprir o mandato

O senador José Sarney (PMDB-AP), em discurso no Plenário nesta quarta-feira, 5, disse não ter alternativa a não ser resistir e cumprir seu mandato de presidente do Senado até o fim. Ele lembrou a herança histórica de seu governo (1985-1989) e de seus mandatos parlamentares para o Brasil, e respondeu a denúncias que têm sido publicadas contra ele.

– Na coerência do meu passado, não tenho cometido nenhum ato que desabone minha vida. Não tenho senão que resistir, foi a única alternativa que me deram. Todos aqui somos iguais. Nenhum senador é maior do que o outro e, por isso, não pode exigir de mim que cumpra a sua vontade política de renunciar. Permaneço pelo Senado para que ele saiba que me fez presidente para cumprir o meu mandato – disse.

Sarney afirmou que vem tomando todas as medidas necessárias para promover a reforma administrativa do Senado, com ênfase na "eficiência e transparência", acrescentando que problemas que vieram se acumulando durante vários anos estão sendo resolvidos.

– Nosso desejo e determinação é que possamos retomar a nossa agenda de Casa Legislativa, discutindo os grandes problemas políticos, as reformas que aguardam uma ação firme do nosso Parlamento – disse.

Sarney, que ocupa pela terceira vez a Presidência do Senado, lembrou que não é o único senador a presidir a Casa por mais de uma vez. Lamentou que "toda a mídia e alguns senadores" não falem mais em crise administrativa e sim vinculem todos os problemas a ele.

– Não dizem o que fiz de errado, por que devo receber punição, o que devo fazer para a reforma do Senado. Os jornais e a mídia em geral, que eu conheça, nunca se concentraram tanto contra uma pessoa como estão fazendo comigo, vasculhando minha vida, desde o meu nascimento e, não encontrando nada, invadem minha privacidade e abrem devassa que se estende até a minha família inteira – disse.

Sarney negou a prática de nepotismo ou que tenha favorecido a empresa do neto José Adriano, que é sócio de uma empresa de empréstimo consignado que atua no Senado desde 2005. Também negou participação em qualquer ato secreto ou irregularidade. O senador ainda criticou os métodos usados por seus adversários, que segundo ele o estariam caluniando e fazendo montagens em suas denúncias. De acordo com o parlamentar, foi montada uma suposta conversa entre ele e o empreiteiro Zuleido Veras, implicado em 2007 na Operação Navalha, da Polícia Federal.

– É uma campanha pessoal, sem respeitar minha privacidade, sem respeitar 55 anos de serviços prestados a este país e ao Senado. Em nenhum momento da minha vida faltei ou faltarei ao decoro parlamentar – disse o senador, pedindo também a pacificação das relações entre os senadores.

A reunião do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar em que representações contra José Sarney poderão ser examinadas foi suspensa para que os senadores pudessem ouvir o discurso de Sarney no Plenário.

Nepotismo – Sarney lembrou que está há 55 anos no Congresso Nacional, afirmando que, neste período, nunca adotou a norma de chamar parentes para assessorá-lo. Ele negou ter praticado nepotismo e comentou uma por uma a lista de nomeações que lhe são atribuídas em representações abertas no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar.

Dos 17 nomes listados nas representações, José Sarney reconheceu ter influído apenas na contratação da sobrinha Vera Portela Macieira Borges, funcionária do Ministério da Agricultura, requisitada pela Presidência do Senado e cedida ao gabinete do senador Delcídio Amaral (PT-MS), em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Sobre as outras nomeações Sarney ressaltou que as contratações de gabinetes são privativas dos respectivos senadores.

Uma delas, a de João Fernando Sarney, seu neto, foi feita pelo senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA), sem seu conhecimento, disse Sarney. Outras, disse o senador, foram feitas por sua filha, a ex-senadora Roseana Sarney (PMDB-MA), atual governadora do Maranhão.

– A lei brasileira não passa responsabilidade de filha para pai – assinalou.

Sarney disse ainda que desconhece alguns dos funcionários cujas nomeações lhe são atribuídas. Ele negou também ser responsável pela nomeação dos filhos do ex-diretor de Recursos Humanos do Senado, João Carlos Zoghbi.

– Todos sabem que eu nunca me relacionaria aqui com o senhor Zoghbi e, ao contrário, mandei abrir inquérito contra ele – disse.

Em relação à nomeação do namorado da neta, Henrique Dias Bernardes, para um cargo no Senado, Sarney explicou que se trata de um funcionário competente, formado em Física e pós-graduado, que trabalha com assiduidade e recebe elogios dos chefes. Disse que os diálogos divulgados pela imprensa "de maneira ilícita" em que a nomeação de Bernardes é discutida são "conversas coloquiais entre familiares, que nada têm com um processo em segredo de justiça e pela lei deveriam ser eliminados". Além disso, acrescentou, nesses diálogos não há menção a nomeação por ato secreto.

Sobre a denúncia de que seu neto José Adriano Cordeiro Sarney teria sido privilegiado com agenciamento de créditos consignados de forma fraudulenta, o senador esclareceu que o neto "nunca teve nenhuma relação com o Senado". José Adriano tinha na verdade, disse Sarney, relações profissionais com o HSBC, banco que foi autorizado a operar com a instituição em 2005, quando ele não tinha cargo gestor na Casa.

– Quando assumi, em 2 de fevereiro deste ano, meu neto não era mais credenciado do HSBC e o banco não trabalhava mais com crédito consignado no Senado, conforme nota do próprio banco – informou.

Outra denúncia abordada por Sarney é a de que teria enviado quatro policiais do Senado para sua casa em São Luiz (MA), que estaria sob ameaça de atentado. Sarney afirmou que esse tipo de pedido é comum entre os senadores e que essa é uma das funções da Polícia do Senado.

Por fim, informou não ter funções administrativas na Fundação José Sarney desde 1990, e lembrou que o recebimento de auxílio-moradia é legal mas que, por uma decisão pessoal, pediu que os valores que recebeu na forma desse benefício fossem estornados do contra-cheque.

 

Agência Senado

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