Angélica Lúcio

Angélica Lúcio é jornalista, com mestrado em Jornalismo pela UFPB e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Atualmente, atua na Comunicação Social do HULW-UFPB/Ebserh como jornalista concursada.


Rádio não é só para ouvir, é para ver também

Quando eu era adolescente, participei de várias gincanas no Instituto Educacional Vera Cruz, em Patos, no Sertão paraibano. Numa delas, as equipes inscritas receberam uma tarefa antecipada: apresentar o aparelho de rádio mais antigo que conseguissem encontrar. Além de sair perguntando, vizinho a vizinho, quem conhecia alguém, que conhecia outro alguém, que pudesse ter um rádio beeeeeem antigo, fizemos algumas pesquisas para saber quando esse meio de comunicação havia chegado ao Brasil. Descobrimos que havia sido ainda na década de 1920.

Na Paraíba, conforme artigo publicado pelo professor Moacir Barbosa de Sousa, não há exatidão a respeito de quando os primeiros aparelhos receptores chegaram ao nosso Estado, mas sabe-se que, em 1937, uma loja de João Pessoa (especializada em artigos elétricos) publicou um anúncio sobre o Radiorreceptor Ericsson. Essa seria a data mais precisa sobre o assunto, conforme Moacir Barbosa.

À época, pouca gente possuía aparelho de rádio por aqui, e era comum que os sons da Rádio Clube da Paraíba (depois Estação Rádio-Diffusora e hoje Rádio Tabajara) chegassem à maioria dos ouvintes por meio de alto-falantes instalados no Centro de João Pessoa. De acordo com Moacir Barbosa, o “transmissor da nova emissora não era potente e os poucos proprietários de receptores precisavam de muita paciência para sintonizar o sinal da Rádio Clube. Alguns desses donos de aparelhos chegaram a destinar salas especiais onde as pessoas se reuniam ao redor do Radiorreceptor”.

Eu tive a curiosidade de pesquisar sobre os primórdios do rádio na Paraíba ao ler os dados do Inside Radio 2021, estudo da Kantar IBOPE Media divulgado recentemente. A pesquisa aponta que 80% dos brasileiros ouvem rádio, e cada ouvinte passa, em média, 4 horas e 26 minutos ligado no rádio. Na Região Sul, o índice de ouvintes chega a 85% das pessoas, seguida por Nordeste (81%) e Centro-Oeste e Sudeste (ambas com 80%). Mais: 42% dos ouvintes de rádio gostam de comerciais nas rádios entre os programas e as músicas, e o crescimento da credibilidade do rádio no último ano foi de 43%.

A maioria dos brasileiros prefere usar o rádio comum (80%), mas o consumo pelo celular aumentou em relação a 2020: de 23% para 25% em 2021. Quando o consumo é on-line, temos os seguintes números: 66% pelo celular, 37% pelo computador e 8% em outros equipamentos. Entre os web ouvintes, há grande destaque para as pessoas da classe AB, entre 20 e 39 anos; ou seja, é um público jovem e conectado a novas tendências.

Os dados do Inside Radio 2021 mostram ainda um fenômeno muito interessante: rádio agora não é só para ouvir, é para ver também. As emissoras estão investindo mais em canais de players de vídeo, em transmissões ao vivo do estúdio, ou em programas exclusivos. E isso se justifica, afinal 59% do público entrevistado ouviu música ou outro conteúdo de áudio no YouTube, e 73% assistiram a vídeos on-line em sites de fotos e vídeos. A pesquisa traz ainda muitos outros dados interessantes, inclusive sobre podcast e redes sociais com foco apenas em voz, a exemplo do Clubhouse.

Em tempo: sabem a tarefa de encontrar o rádio mais antigo da cidade, que citei no início deste texto? Por pouco, minha equipe não levou o ponto! Mas nossa participação ficou na memória de todos, tenho certeza. Na hora de apresentar os aparelhos, levamos um bonito rádio emprestado de alguém do bairro e o colocamos com cuidado sobre a mesa. De imediato, ouve-se uma grande gritaria e todos os olhos se fixam em um personagem que circula entre os jurados… Não era o dia do rádio, era do rato mesmo!

angelicallucio@gmail.com

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