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PF vê gabinete de Tuma Júnior como uma “central de favores”

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A mesma investigação da Polícia Federal que descobriu ligações estreitas do secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, com o homem apontado como um dos chefes da máfia chinesa em São Paulo revela em detalhes a maneira como ele e seus auxiliares mais próximos transformaram seus gabinetes em Brasília, a poucos metros de onde despacha o ministro da Justiça, numa central de solução de problemas de amigos, familiares, aliados e até de escritórios de advocacia com interesses no ministério.

Os diálogos e documentos colhidos ao longo da investigação mostram Tuma Júnior e assessores usando a secretaria – e o prestígio dos cargos que ocupam – para, por exemplo, agilizar processos de naturalização de estrangeiros ilegais e obter na PF a emissão a jato de passaportes para atender pedidos que chegavam diariamente por telefone.

O inquérito também aponta relações suspeitas dos assessores do secretário com acusados de espionagem ilegal e revela lobby do próprio Tuma Júnior para aprovar um pedido de indenização em favor do pai de um assessor.

Os auxiliares de Tuma Júnior que mais aparecem nas gravações telefônicas são o policial federal Paulo Guilherme Mello, braço direito do secretário no Ministério da Justiça, e o delegado da PF Luciano Pestana Barbosa, diretor do Departamento de Estrangeiros, um dos principais órgãos da Secretaria Nacional de Justiça. Paulo Mello era alvo da PF desde o começo da investigação, aberta inicialmente para apurar fraudes na emissão de passaportes.

Foi escutando os telefones de Mello que a PF chegou depois ao chinês Li Kwok Kwen, o Paulo Li, e mapeou seu esquema de importação ilegal de celulares pirateados na China. A investigação se desdobrou e originou duas operações, a Wei Jin, que mirou os negócios de Li, e a Linha Cruzada, que levou à prisão de dois arapongas aposentados suspeitos de espionagem ilegal. Tuma Júnior e Luciano Pestana foram gravados ao falar com Mello e Paulo Li. Em diferentes pontas da investigação surgem suspeitas sobre o grupo.

Faz-tudo. Mello, uma espécie de faz-tudo a ponto de a PF escrever num dos relatórios de inteligência que Tuma Júnior se vale de seus serviços para "resolver eventuais problemas que lhe possam incriminar", é personagem recorrente.

Num dos diagramas de inteligência que estabelecem a relação entre os alvos, os investigadores apontam o assessor como elo entre escritórios de advocacia e o Departamento de Recuperação de Ativos (DRCI) do Ministério da Justiça, cuja função é recuperar valores enviados ilegalmente para fora do País. A estrutura do DRCI é subordinada a Tuma Júnior.

Em conversas com o próprio Tuma Júnior, Mello aparece pedindo ajuda do chefe para obter sucesso num processo, em tramitação na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em que tenta indenização para seu pai por supostos danos no período do regime militar.

"Manda os caras (da Comissão de Anistia) tomar no c., Romeu. Não querem dar essa bosta aí. Sai pra todo mundo, até pra índio sai. Sai para cara do Araguaia (refere-se à guerrilha do Araguaia) que nem apareceu… Meu pai ficou dezesseis anos afastado… Dos dezesseis anos que ele ficou parado, ele não recebeu nada por isso", diz Mello a Tuma Júnior. "Deixa que eu vou ver, fica frio", responde o secretário.

Dias depois, Tuma Júnior dá retorno ao subordinado sobre o assunto: "A única coisa que tem meia (sic) ruim é que o negócio do teu pai lá que eles mandaram um despacho lá que eu tava vendo… Mas deixa eu falar com o cara amanhã, depois eu te mostro. Já mandaram um e-mail, ia te mandar, nem mandei, amanhã eu mando porque aí eu vou falar com o cara pra ver que p. é essa aí", diz Tuma Júnior.

Paulo Mello também aparece em contatos com um araponga do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), preso na Operação Linha Cruzada junto com um ex-agente do serviço secreto chileno por espionagem ilegal. Eles falam pouco ao telefone. Limitam-se a combinar encontros em São Paulo e Brasília.

Passaportes. A PF gravou ainda ligações em que Mello, segundo os investigadores, faz suposta intermediação de pagamento de propina entre comerciante e um delegado da Polícia Civil de São Paulo. "Oh meu, tá faltando o azeite lá em casa, tá? Só pra te lembrar", diz o delegado a Mello, que em seguida se encarrega de ligar para o comerciante e avisa: "Ele (o delegado) tá cobrando o azeite dele lá."

Pelo serviço vip de emissão de passaportes, Mello chegou a ser indiciado pela PF por tráfico de influência. Um dos "clientes" de Mello é Wanderley Nunes, cabeleireiro de personalidades como a primeira-dama Marisa Letícia.

Numa das ligações, em que pede ajuda a Mello para agilizar a liberação do passaporte do filho com passagem marcada para a Europa, o cabeleireiro convida Mello para uma viagem à Holanda, "com tudo pago".

 

Estadão

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