Célia Chaves

Jornalista, graduanda de Psicologia, no Uniesp.


Pedaços de atenção, restos de carinho

Nos últimos tempos, cada vez mais marcados por relações digitais e uso das redes sociais, a chamada prática do breadcrumbing (termo inglês que significa espalhar migalhas) torna-se bastante recorrente. Uma estratégia rasa, pautada na doação de pedacinhos afetivos, restos de atenção e carinho, com o claro propósito de apenas iludir e semear falsas esperanças. Se você já vivenciou, direta ou indiretamente, o “não te quero, mas também não largo”, sabe exatamente do que se trata.

Mesmo sem vislumbrar nada – ou quase nada – com o outro, tampouco compartilhar alguma forma de sentimento ou compromisso, a pessoa alimenta uma pseudo relação, ofertando respingos de atenção. São suaves venenos, que adoecem e fazem sofrer, a despeito de toda a cortina de ilusões, tão afeita à natureza humana.

Estudos recém-publicados revelam o crescimento do breadcrumbing, impulsionado pela pandemia, em razão de uma maior utilização e permanência nas redes sociais. Estima-se que 44% das pessoas, entre 18 e 49 anos, estão constantemente online, experimentando as várias nuances de relações digitais.

Essa prática deriva de comportamentos egoístas, ávidos por alimentar o próprio ego. Narcisistas, por exemplo, costumam lançar mão de tais estratégias sem dó ou piedade. Cada presa fisgada pode ser mantida sob sua influência e domínio por longo período, até que a vítima busque ajuda e liberte-se daquela situação.

Apesar de se considerar, geralmente, o universo feminino como mais vulnerável, homens também passam por situações desse gênero. Quando menos se espera, há uma romantização de gestos e palavras que jamais passarão daquilo. É um like aqui, mensagem de “oi sumida” acolá ou simples visita aos stories do instagram. As técnicas são as mesmas, mas logo a pessoa vivencia pensamentos do tipo “ele (a) não me esqueceu”. E assim a “relação” caminha sobre trilhas de migalhas travestidas em banquetes.

A fartura só existe mesmo na cabeça do autor daquele castelo de areias. Tão frágil e efêmero que sucumbirá aos primeiros ventos e intempéries da vida. Ninguém merece apegar-se a algo pequeno e devastador ao mesmo tempo. Afinal, o ser humano nasceu para desfrutar experiências amorosas saudáveis e prazerosas. Basta ele se perguntar de que tem fome e compreender suas reais necessidades.

Ninguém precisa conformar-se com pinguinhos de afeto ou lampejos de atenção. Nesse caso, manter-se preso impede de seguir, conhecer pessoas e redirecionar posições. Sim, você gostaria de permanecer na lanterninha? Qual o seu lugar na vida de quem escolheu para namorar, casar, ser amigo, ficar ocasionalmente, enfim, relacionar-se de alguma maneira?

São reflexões fundamentais para que o indivíduo jamais prescinda da capacidade de gerir a própria existência e emoções. Sempre valerá a pena desvencilhar-se das migalhas e abreviar sofrimentos. Nada de parcelar em doses homeopáticas. A fatura logo chegará, com tamanho e variantes muito mais desoladoras e preocupantes. Como diz o poeta, se o amor é curto e o esquecimento faz-se longo, de nada lhe servirá.

2 comentários

  • Neide
    09:28

    Excelente reflexão 👏👏👏👏👏👏👏👏

  • Wellington Farias
    09:28

    Muito bom o conteúdo e parabéns pelo texto enxuto e claro, como manda o figurino.

Comentários

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