Wendel Limeira

Wendel Limeira é formado em Comunicação Social com habilitação em Rádio e TV pela Universidade Federal da Paraíba.


Paralelas

O despertador do celular tocou às quatro da manhã. Maria acordou assustada. Antes de levantar, um beijo na filha, de seis anos. Dormiam no colchonete estendido no chão da sala. Esquentou água para o café. Tomou banho apressada. Não podia atrasar para o trabalho. Antes de sair, atravessando a casa pequena de três cômodos, num subúrbio da cidade, despediu-se da mãe aposentada e do irmão desempregado, que ficaram à mesa, comendo pão dormido passado na margarina e tomando um café preto.

Com a redução na frota de ônibus da cidade, foi andando até a casa dos patrões. Depois de quarenta minutos de caminhada, chegou exausta, respirou fundo e foi para cozinha. O iogurte com granola de Dona Cecília, a tapioca de frango de Seu Orlando e o misto quente dos garotos, que já se preparavam para as aulas online da escola, não poderiam esperar.

Achou estranho que a patroa não se sentou à mesa e foi dar uma olhada. Dona Cecília estava indisposta, acreditava que ser “jetlag”. Ainda não estava acostumada com o fuso horário do país desde que voltara das férias na Europa.

Lavou os banheiros. Passou o pano na casa. Botou a roupa suja para lavar. E fez o almoço. Também preparou bolinhos de chuva para as crianças comerem à tarde. Antes de sair, deixou uma sopa pronta sobre o fogão e avisou à patroa. Recebeu seus 800 reais. Acordo que elas tinham feito, já que o casal não poderia assinar a carteira de Maria.

Satisfeita com o dinheiro, foi para a parada de ônibus esperar o transporte, que passaria a partir das 18 horas. Subiu no veículo lotado e ficou em pé até um cavalheiro levantar e lhe oferecer o assento. Maria era preta e esbelta, vivia sempre com um sorriso leve no rosto e chamava atenção por onde passava. Naquele momento, achou que estava sendo paquerada. Sorriu para o rapaz. Mas a máscara que usava no rosto não deixou que ela soubesse se foi correspondida. Ainda se olharam várias vezes. Mas Maria desceu na parada seguinte. Uma pena!

Chegou em casa, abraçou a filha e foi com ela ao mercadinho da esquina. Pagou o que estava devendo, comprou salsicha com molho de tomate para comer com cuscuz. Dia de pagamento era sempre assim!

Depois do jantar, lavou a louça e sentou no chão com a filha em meio às almofadas e assistiu a novela das nove. Quando acabou, Maria pediu a benção à mãe, deu um tchau para o irmão, estendeu o colchonete no chão e foi dormir com a filha.

O despertador tocou às quatro, mas Maria não se levantou. A mãe achando estranho o silêncio da casa foi ao encontro da filha, que estava queimando em febre. Tomou dipirona e foi para posto de saúde mais próximo, cedo para não enfrentar filas. No meio do caminho, ligou para os patrões e avisou que iria se atrasar.

Por um acaso que acontece cheio de propósitos, encontrou o cavalheiro da noite anterior, logo após a consulta. Parece que também ele estava doente. Trocaram os números de whatsapp. Seu nome era Reginaldo. Conversa vai, conversa vem, descobriram uma série de afinidades. Um tanto de coisas em comum, inclusive, a infecção por coronavírus. Mas era tarde para os dois. Estavam apaixonados!

3 comentários

  • Guilherme
    17:35

    Triste realidade do nosso Brasil… Linda reflexão!

  • Mayra Porto
    17:35

    Quantas Marias resistem por esse Brasil agora! E tantas com finais mais trágicos que foi reconfortante ver Maria apaixonada ?! ?

  • Mayra Portk
    17:35

    Quantas Marias resistem por esse Brasil agora! E tantas com finais mais trágicos que foi reconfortante ver Maria apaixonada ?! ?

Comentários

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