Paraibano é expulso do Facebook por disseminar ódio e ataques políticos

O Facebook afirmou nesta quarta-feira (8) que removeu uma rede com 73 contas ligadas a integrantes do gabinete do presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e aliados. Parte delas promovia propagação de ódio e ataques políticos. Foram removidas 35 contas do Facebook e 38 do Instagram que, segundo a empresa, atuaram para manipular o uso da plataforma antes e durante o mandato de Bolsonaro —incluindo a criação de pessoas fictícias que se passavam por repórteres. Um dos banidos foi um paraibano: Tércio Arnaud Tomaz, de 31 anos, se formou em Biomedicina em Campina Grande, é assessor especial da Presidência da República e faz parte do chamado “gabinete do ódio” ou “gabinete da raiva”.

O grupo, tutelado pelo vereador licenciado Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), é responsável por parte da estratégia digital bolsonarista. A existência do gabinete foi revelada pela Folha de S.Paulo no dia 19 de setembro do ano passado. O jornal mostrou que o bunker ideológico está instalado numa sala no terceiro andar do Palácio do Planalto, a poucos passos do gabinete presidencial.
Eles chegaram ao governo com o objetivo de manter viva a militância digital responsável por alçar Bolsonaro à Presidência.

Os pesquisadores americanos encontraram, também, ligações da rede com um assessor de Carlos. O Facebook não mencionou o vereador em seu comunicado oficial, mas os pesquisadores descobriram que um dos funcionários envolvidos na operação trabalhava para ele.

Além da página “Bolsonaro Opressor 2.0”, seguida por mais de 1 milhão de pessoas no Facebook, foi identificada a conta @bolsonaronewsss, também sob administração de Tércio, com 492 mil seguidores e mais de 11 mil publicações.

De acordo com o estudo, muitas dessas postagens feitas por Tércio foram publicadas durante o horário comercial, ou seja, podem ter sido feitas durante o expediente dele no Planalto.

Também foram citadas contas e páginas de dois assessores do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

O Facebook também achou indícios de assessores do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na operação.

“Nossa investigação encontrou ligações a pessoas associadas ao PSL (Partido Social Liberal) e a alguns dos funcionários nos gabinetes de Anderson Moraes, Alana Passos, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro”, afirmou a empresa, que fez uma investigação interna mais ampla e identificou redes inautênticas também no Canadá, no Equador, na Ucrânia e nos Estados Unidos.

Anderson Moraes e Alana Passos são deputados estaduais do PSL no Rio, ligados à família Bolsonaro.

Os conteúdos eram sobre notícias e eventos locais e, de acordo com o Facebook, incluíam política e eleições, memes, críticas à oposição política, organizações de mídia e jornalistas, e mais recentemente sobre a pandemia do coronavírus.

A empresa disse que barrou as contas concentradas “no comportamento, e não no conteúdo”.

O total gasto com anúncio no Facebook foi de cerca de US$ 1.500, pagos em reais (R$ 8.025 na cotação atual). As contas do Facebook tinham cerca de 883 mil seguidores. Também foi detectado um grupo com cerca de 350 pessoas. No Instagram, eram 917 mil ao todo. Assim, o número pessoas alcançadas pelos conteúdos dessa rede ultrapassava 2 milhões.

A derrubada fez parte de uma investigação interna mais ampla, que eliminou quatro redes distintas por violação da política do Facebook “contra interferência estrangeira e comportamento inautêntico coordenado”.

“Em cada um dos casos, as pessoas por trás da atividade coordenaram entre si e utilizaram contas falsas como parte central de suas operações para se ocultar, e é com base nessa violação de política que estamos agindo”, afirmou Nathaniel Gleicher, diretor de cibersegurança da empresa, em uma entrevista coletiva global.

Além de Brasil, foram identificadas redes no Canadá, Equador, na Ucrânia e nos Estados Unidos.

Segundo Gleicher, as redes usavam combinação de contas reais e falsas, algumas das quais já tinham sido detectadas e removidas pelos sistemas automatizados da plataforma.

“A rede postou conteúdos sobre notícias domésticas e eventos, incluindo política, ativismo, elogios e críticas a candidatos políticos, eleições, governo da Venezuela, suporte e críticas ao presidente do Equador, partidos políticos da região incluindo o Farabundo Martí National Liberation Front em El Salvador, o Partido Justicialista na Argentina, e o Partido Progresista no Chile”, diz o Facebook.

A empresa diz que identificou a atividade como parte de suas investigações sobre comportamento inautêntico coordenado no Brasil a partir de notícias da imprensa e de audiência no Congresso.

Da lista identificada pelo Facebook, Tércio, Eduardo Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Eduardo Guimarães são citados ou investigados na CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) das Fake News. A comissão está suspensa desde março, por conta da pandemia de coronavírus, e deve retomar os trabalhos após a volta das sessões presenciais.

OUTRO LADO

A assessoria do Planalto ainda não se manifestou.

Em nota, o senador Flavio Bolsonaro disse que o governo Bolsonaro foi eleito com forte apoio popular nas ruas e nas redes sociais “e, por isso, é possível encontrar milhares de perfis de apoio”. “Até onde se sabe, todos eles são livres e independentes”, afirmou.

“Pelo relatório do Facebook, é impossível avaliar que tipo de perfil foi banido e se a plataforma ultrapassou ou não os limites da censura.”

Ela afirmou, ainda, que julgamentos que não permitem o contraditório e a ampla defesa “não condizem com a nossa democracia” e “são armas que podem destruir reputações e vidas”.

A deputada Alana Passos afirmou que não foi notificada pelo Facebook sobre qualquer irregularidade ou violação de regras” nas suas contas.

“Quanto a perfis de pessoas que trabalharam no meu gabinete, não posso responder pelo conteúdo publicado. Nenhum funcionário teve a rede bloqueada por qualquer suposta irregularidade”.

O PSL negou vínculo com contas de derrubadas.

“A respeito da informação que trata da suspensão de contas do Facebook de alguns políticos no Brasil, não é verdadeira a informação de que sejam contas relacionadas a assessores do PSL, e sim de assessores parlamentares dos respectivos gabinetes, sob responsabilidade direta de cada parlamentar, não havendo qualquer relação com o partido.”

“O partido esclarece que os políticos citados, na prática, já se afastaram do PSL há alguns meses com a intenção de criar um outro partido, inclusive, tendo muitos deles sido suspensos por infidelidade partidária. Ainda, tem sido o próprio PSL um dos principais alvos de fake news proferidos por este grupo”, afirmou.

Por meio de nota, a assessoria de imprensa do deputado Anderson Moraes afirmou que ele tem um perfil verificado, que não sofreu bloqueio ou qualquer aviso de ter violado qualquer regra da rede.

“Mas excluíram a conta de uma pessoa que trabalha no gabinete, uma pessoa com perfil real, não é falsa. A remoção da conta foi absurda e arbitrária, porque postava de acordo com ideologia e aquilo que acreditava”, disse.

Segundo ele, o Facebook em nenhum momento apontou o que estava em desacordo com as regras. “Qual motivo excluíram? Falam em disseminação de ódio, mas será que também vão deletar perfis de quem desejou a morte do presidente?”, questiona.

Moraes afirmou que a medida é um atentando contra a liberdade de expressão e que contraria princípios democráticos.

Os demais citados, procurados, não responderam ou não foram localizados.

 

 

 

com Zero Hora

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