Célia Chaves

Jornalista, graduanda de Psicologia, no Uniesp.


O segredo do amor e sexo em todas as idades

Do alto de sua genialidade e sensatez, o poeta brasileiro Mário Quintana nos ensina que “ninguém pode estar na flor da idade, mas cada um pode estar na flor da sua própria idade”. Não importa se aos 20, 30, 50 … 80 ou 90 anos, o ser humano carrega consigo o dom de buscar relações amorosas e deparar-se com a formação de novos vínculos: afetivos, socioculturais, familiares, profissionais e sexuais.

Cada fase reserva um (ou mais) tipo de excitação e sintonia, como se um ciclo preparasse o outro. Digamos que o furor sexual, comum aos 20 anos, ceda lugar a um prazer mais amadurecido e apetitoso, com a chegada dos cabelos brancos. Haverá, afinal, algum outro limite à vida sexual nesse plano, senão a própria morte? Na esperança de jamais existir, tenhamos, em qualquer idade, um reencontro com o amor, nas suas mais variadas formas de pensamentos, gestos, sentimentos e desejos. São topografias comportamentais que trazem benefícios imensuráveis, e somente quem as vive torna-se capaz de alcançá-los.

​A vivência da sexualidade possibilita, entre tantas outras coisas, expressões de carinho, admiração, gratidão, afeto, sensualidade e felicidade. Sim, há amor suficiente para todos, em qualquer fase. Portanto, sejamos econômicos nos impedimentos e mais generosos consigo mesmos. Deixemos alguns conceitos, estereótipos e modelos de vida bem ao fundo do baú, para que os anos jamais abstraiam sonhos, autoestima e tampouco as manifestações sexuais.

​Há uma diferença entre estar vivo e sentir-se vivo; ser idoso e sentir-se idoso … Aqueles que não atentam para isso correm o risco de aposentar-se do trabalho e também da vida, sobretudo de sua sexualidade, fonte inesgotável de prazer, trocas e descobertas, não de maneira utópica, mas extremamente palpável e presente. Como nos ensina a cronista e poetisa Cora Coralina, que, aos 94 anos, escreveu seu primeiro livro. Ela nos conclama a despedaçar, no nosso âmago, “tudo que é velho e morto”.

​Homens e mulheres, de todas as idades e orientações, podem e devem desfrutar de vivências sexuais, sem sentir vergonha ou temor de eventuais limitações físicas. O corpo mudou, claro… O pique para maratonas sexuais também, mas há várias maneiras de regozijar-se na cama, valorizando a intimidade do ser. Faz-se necessário perder a inibição e quebrar tabus que ainda permeiam o “eu” de muitas pessoas, segundo as quais trata-se de algo “ousado” demais a partir de certa idade.

​Assim, o amor e a sexualidade passam a ser vistos como privilégios dos mais jovens. É justo que os demais amarguem, até o momento final, a abstinência sexual ou mesmo a penitência do amor platônico? A internalização de tais preconceitos pode representar a própria morte do ser imerso à plenitude da vida.

Na verdade, o desejo não tem idade. Surge independente de expectativas sociais, e não adianta minar suas motivações, classificando-as como indecências ou perversões, tampouco impor conceitos e estereótipos de assexualidade e até mesmo androginia. Tratam-se de falsas ideias, que contribuem apenas para autopercepções distorcidas, responsáveis por sentimentos de menos-valia, além de contradizer as sensações e capacidade de amar, tão inerentes aos seres humanos.

Amor e sexo, assim como enlaces e desenlaces, sempre estarão aptos a serem redescobertos, ressignificados ou mesmo intensificados, em substituição a sentimentos de profundo vazio e solidão. São atitudes de adesão à vida, como o faz nosso ídolo maior, Chico Buarque de Holanda, que, aos 77 anos, anunciou uma nova aliança afetiva. Sejamos felizes!

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