Célia Chaves

Jornalista, graduanda de Psicologia, no Uniesp.


O mito da incapacidade paterna

O que é ser pai? Essa pergunta permeia o imaginário de homens e mulheres de diferentes gerações. Mas, a verdade é que a resposta continua no limbo, e assim permanecerá, com direito a questionamentos e definições das mais variadas. São conceitos que atravessam o pai simbólico, imaginário, o real, aquele que ousa fugir do mito da incapacidade ou, simplesmente, mantém-se em suposta zona de conforto.

​Sim, igualzinho existe o mito do amor materno, segundo o qual toda mulher nasceu para ser mãe e, consequentemente, assumirá a obrigação de dar conta das dores e delícias propiciadas pela maternidade, faz-se recorrente o mito da incapacidade paterna. Aquele pai que jamais encontra-se habilitado a ficar sozinho com o filho pequeno, julga-se incapaz de cuidar e nunca está disponível.
O ato de cuidar aparece como atribuição exclusivamente feminina, culminando, quase sempre, com ausência de disponibilidade afetiva da figura paterna. Desenha-se quadro preocupante, onde o abandono gera sucessão de problemas emocionais entre pessoas de todos os segmentos sociais e idades.

Abandonar também constitui uma forma de violência doméstica. Sentir-se afetivamente largado produz feridas e estragos na alma difíceis de serem remediados.

O médico e fundador da psicanálise, Sigmund Freud, abordou, em vários momentos de sua atividade clínica, o processo de paternagem e suas dificuldades. Na época, ele observou que grande parte dos homens vivia a paternidade como uma fatalidade, e não opção. Persistia uma incapacidade de apoderar-se e gerir um lugar desconhecido ou gerador de angústias.
A observação aplica-se com perfeição ao momento atual, onde constata-se declínio social da função paterna, apesar de alguns homens buscarem diferenciais e enveredarem por outros caminhos e planícies sensoriais.

São heterossexuais, homossexuais, transexuais, que ousam deslocar-se do lugar comum e ser pai. Esforçam-se, dia a dia, para quebrar esse ciclo de negligências e também resistências.

Quem nunca ouviu frases dos tipos: “você dá conta?, “cadê sua mãe?”, “vai ficar sozinho com ele(a)?”. Portanto, não trata-se de culpabilizar, e sim trazer reflexão acerca de papeis desempenhados na contemporaneidade, em busca de caminhos mais saudáveis para pais e filhos, em meio ao turbilhão de conflitos psíquicos experimentados na atualidade, quando assistimos, incrédulos, ao adoecimento mental, em larga escala, ainda na infância e adolescência.

Neste domingo dos pais (8 de agosto), parabéns a todos que vivenciam o cuidar como algo transformador em suas vidas. Pais que desfrutam do convívio de seus rebentos, responsável e afetivamente, sem temer o curso da história. Sabem ocupar seu lugar e exercer verdadeiramente a paternidade, com todos os desafios, erros e acertos comuns à existência humana.

2 comentários

  • Sandra Vieira
    09:40

    Parabéns, Célia Chaves. Ótimo texto e bem apropriado para este dia dos pais. Muitos pais não se veem protagonista da história dos filhos. Preferem, para não ter aperreio, delegar esse “trabalho” de cuidar, em todos os sentidos. Essa história tem mudado. Hoje são muitos homens que encaram a paternidade como uma responsabilidade total. E que assim seja..

  • Elma
    09:40

    Parabéns, muito pertinentes as colocações, com certeza muitos pais se identificaram com o que escrito.

Comentários

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