Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


O expressionismo alemão em mostra com oito filmes emblemáticos do movimento

O cinema encontrou terreno fértil nas décadas de 1910 e 1920 marcadas por convulsões sociais e políticas (I Guerra Mundial e Revolução Russa) e de grande efervescência cultural com a emersão das vanguardas artísticas, refletindo e questionando o momento histórico, rompendo padrões vigentes e propondo alternativas no fazer artístico. Essas propostas vão repercutir no fazer cinematográfico com o surgimento, no próprio cinema, de vanguardas congêneres. O expressionismo alemão foi uma delas. A plataforma Petra Belas Artes à la Carte dedica a esse cinema oito de suas obras, entre elas as mais icônicas desse, digamos, movimento.

Fritz Lang é o cineasta mais festejado nesta mostra, com três de seus filmes aclamados na sua carreira alemã: A morte Cansada (1921), Metrópolis (1927) e M, O Vampiro de Düsseldorf (1931) – depois o diretor emigra para os Estados Unidos numa controvertida fuga durante o regime nazista. Friedrich W. Murnau se destaca com duas obras primorosas Nosferatu, uma sinfonia de horror (1922), que também se tornou obra icônica dessa cinematografia, e A última gargalhada (1924). Robert Wiene se faz presente com O gabinete de Dr. Caligari (1919), filme marco do expressionismo, e o menos conhecido As mãos de Orlac (1924). E fechando com um exemplar de Georg W. Pabst, A Caixa de Pandora (1929). É lamentável a ausência de Fausto (1926) de Murnau, um primor no uso da luz e da sombra em suas imagens arquetípicas.

A sofisticação desses filmes, no trato com a luz e na composição de uma atmosfera visual com forte carga simbólica, teve enorme impacto noutras cinematografias, influenciado diretores em todo o mundo. Marcadamente, esta influência vai se efetuar no cinema norte-americano da década seguinte quando, com a ascensão do nazismo, diversos profissionais do cinema alemão, muitos de origem judaica, deixam a Alemanha para trabalhar em Hollywood. Eles vão emprestar o estilo visual do cinema expressionista aos filmes noirs que começam a ser realizados nos EUA e cujo apogeu se dá nos anos 40 e meados dos anos 50.

Aqui destaco os filmes que mais me impactaram ao trabalhar o tema na minha tese de doutoramento Luz e sombra: significações imaginárias na fotografia do cinema expressionista alemão e cinema noir americano (2008), publicada pela editora da UFPB em dois volumes em 2013 e 2015. Nosferatu, uma sinfonia de horror (1922), dirigido por F. W. Murnau, é baseado no romance Drácula, de Bram Stoker. Sua ação se passa em 1838, na cidade de Bremen, e o enredo trata da história do corretor Hutter que viaja à costa do mar Báltico para encontrar o misterioso Conde Orlock (Max Schreck) interessado na compra de uma casa “deserta e agradável” na cidade. No percurso, Hutter (Gustav von Wangenheim) se hospeda numa estalagem e deixa atônitos os moradores da região que o advertem da maldição do local que ele pretende visitar.

Em Nosferatu, Murnau não explorou, de forma paroxística, o embate luz-sombra como fez em Fausto quatro anos depois. No entanto, lega ao cinema momentos surpreendentes do uso da sombra como arquétipo do horror. É aterradora a imagem dos barqueiros descendo o rio e evocando o mito de Caronte, o condutor dos mortos para o Hades, o Mundo Inferior, cuja entrada tem como vigia Cérbero, o cão de guarda de três cabeças. Em Nosferatu é o sobrenatural, o funesto, que anima os objetos: as portas se abrem e fecham sozinhas. A nau fantasma, depois de dizimada toda sua tripulação, chega sem timoneiro, solene e assustadora, ao porto. O próprio Nosferatu age como um autômato ao erguer-se do sarcófago como se levitasse. Murnau, com Nosferatu e Fausto (1922), trabalhou as imagens mais impactantes do expressionismo alemão.

Em A última gargalhada (1924), o outro filme de Murnau na mostra do Belas Artes, o horror não está mais no sobrenatural, mas no ancestral medo da queda moral, da velhice, da decadência física e da morte. Neste filme, depois de toda uma vida dedicada ao trabalho num hotel de luxo, um velho porteiro (nenhum personagem é nomeado e nenhum diálogo é acompanhado de legenda no filme) já não responde com a mesma agilidade à demanda das tarefas da função que lhe traz tanto orgulho e respeito por parte da família e da vizinhança. Seu uniforme negro de botões metálicos reluzentes é o símbolo do status que o posto lhe confere.

Rebaixado à tarefa de manutenção e atendimento no toalete masculino, o velho porteiro inicia sua descida ao inferno existencial. A queda moral se materializa na sua postura física (corpo alquebrado e arqueado) e na fisionomia sofrida pela humilhação. A partir daí, ele tentará omitir a nova condição para as pessoas do seu convívio. Com esse intento, rouba o uniforme para vesti-lo à noite sempre que retorna ao lar, fingindo para todos que ainda é o altivo porteiro do Hotel Atlantic. A Última Gargalhada apresenta os principais elementos inventariados como expressionistas: muitas cenas noturnas, cuja fotografia em preto-e-branco acentua o contraste claro-escuro, e um trabalho de câmera que expressa em imagens sonhos, visões e pesadelos da alma atormentada do personagem.

A fotografia de Karl Freund e o virtuosismo de sua câmera materializam, em imagens em preto-e-branco, estados de niilismo, dor, tristeza e decrepitude moral da alma do personagem em conflito. A fotografia monocromática, muito adequadamente, se presta à atmosfera exigida pelo tema. Essa mostra do cinema expressionista alemão, ora disponibilizada na plataforma Petra Belas Artes à la Carte, dá uma noção do vigor dessa cinematografia, que teve seus filmes produzidos no período compreendido entre 1919 e 1925-7, ainda estudada e discutida por teóricos e críticos ao longo das décadas, influenciando diretores e fotógrafo em todo mundo.

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