Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I
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O documentário ‘Clarice: A descoberta do mundo’ revela a vida singular da escritora brasileira 

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Pela primeira vez, o cinema dedica um documentário de longa-metragem à maior escritora brasileira e uma das mais importantes da língua portuguesa: Clarice Lispector. Vários filmes adaptaram a obra da escritora, entre eles o mais célebre foi ‘A hora da estrela’ (Suzana Amaral, 1985) que premiou no Festival de Berlim a paraibana Marcélia Cartaxo na pele da infausta Macabéa. O filme foi considerado pela Abraccine – Associação dos Críticos de Cinema – um dos melhores 100 filmes brasileiros de todos os tempos. ‘Clarice: A descoberta do mundo’ (Taciana Oliveira, 104min, Brasil, 2022) está em cartaz no Cine Banguê do Espaço Cultural.

O documentário da pernambucana Taciana Oliveira não chega a ser um filme-ensaio como alcunharam algumas resenhas. A menina Clarice adentrou no Brasil pela cidade de Maceió, fugindo com a família judia da conturbada Ucrânia (ela nasceu em 1920), migrou par Recife logo depois, onde viveu nove anos da sua vida (1925-1934), até se estabelecer no Rio de Janeiro, sua cidade, digamos, de adoção onde morreu aos 57 anos de câncer. Tudo isto está no documentário, que mescla depoimentos de amigos, escritores, editores, familiares e colegas de trabalho que revelam a multifacetada personalidade da escritora. 

O documentário apresenta depoimentos de Marina Colasanti e o marido Affonso Romano Sant’Anna,  Ferreira Gullar, Paulo Roberto Rocco, Maria Bonomi, Luis Carlos Lacerda, entre outros, com os da própria Clarice em duas reveladoras (e raríssimas) entrevistas concedidas pela escritora, uma para o Museu da Imagem e do Som do Rio (disponível no YouTube) e outra para o programa ‘Os mágicos’ da antiga TV Educativa com Arakém Távora, em 1976.

O roteiro do documentário teve a participação de Teresa Monteiro, autora de ‘Eu sou uma pergunta: Uma biografia de Clarice Lispector’, de 1999 e da sua edição revisada e ampliada ‘À procura da própria coisa’, uma exigência de Paulo Gurgel Valente, filho de Clarice, para a diretora Taciana Oliveira, que também assina o roteiro, direção de fotografia e montagem. As referidas entrevistas de Clarice Lispector, entremeadas com as falas dos demais depoentes especialmente para o filme, conduzem a narrativa que conta também com imagens de arquivos e outras produzidas para o socumentário como algumas encenações. Atores e atrizes (Andrea Veruska, Cristina Pereira, Elias Andreato, entre outros), atuam para representar o universo da escritora e sua obra. 

O documentário traz uma abordagem convencional, aqui sem nenhum demérito, onde as falas são a tônica. Foi o subgênero cinema direto do grupo de cineastas franceses, tendo Jean Rouch seu maior expoente, que inaugurou essa forma de representação do real cuja ênfase era dada nesse encontro cineasta e sujeito do documentário, com a explicitação da presença do primeiro no universo representado. A cineasta Taciana Oliveira não se faz presente com corpo e voz na narrativa de ‘Clarice: A descoberta do mundo’, mas entendemos que ela está ali escutando e provocando a fala dos depoentes, além da perspectiva que cria sobre a personagem.

Difícil escapara de uma abordagem verborrágica quando tantas entrevistas foram realizadas pela diretora para montar esse quebra-cabeça que é a vida e obra de uma artista tão reclusa e misteriosa como Clarice Lispector. Outra curiosidade foi o tempo de gestação do filme: da pesquisa às entrevistas e a sua finalização foi mais de uma década. Entre os curiosos depoimentos da própria Clarice para as mencionadas entrevistas (muitas vezes inseridas em voz over) e as falas dos demais entrevistados, a diretora optou pela criação e inserção de imagens poéticas e enxertos declamados de diversas obras da escritora. Temos assim um interessante mosaico da vida e da personalidade singular de Clarice. Uma fonte necessária.

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