Nelson Barros

Nelson Barros é psicoterapeuta e escritor.


O Corpo É Uma Festa

Sandra, querida, esse “bilete” é verdadeiro.

Descobri, por acaso, que menti para você, mas não foi por querer. Comentei naquele seu belo texto sobre os corpos que temos, nas diversas fases da vida, que não sentia saudades dos que já tinha tido. Mas hoje aconteceu uma coisa linda: estava na praia, tomando uma caipirinha de maracujá com água de coco, hábito que meu amigo Luiz me trouxe, enquanto observava um menino de uns cinco ou seis anos brincando à beira mar. Nem sei te dizer quanto tempo fiquei apreciando, no mais gostoso apreciar, que é aquele que a gente sente mas não pensa. O “pirrái” era pura felicidade distraída. Brincava sem brinquedo, era corpo e natureza. Ele e as ondas. Tinha hora que ele fugia delas e dava gritinhos estridentes ao escapar, vitorioso. Depois, ele que as perseguia de braços abertos, rugindo como uma oncinha ou como um filhotinho de onda, até voltar fugindo de novo, gargalhando feliz, alheio a qualquer julgamento, amigo das águas e do vento, se divertindo com eles.

Depois ele se jogava na areia, se revestindo dela, só para pular na água e se livrar dos grãos mágicos. Em outros momentos, cavava com as mãos poços miúdos, até que a água minasse dali. Nesse momento ele se jogava no pequeno lago, onde seu corpinho miúdo cabia inteiro. Era tanta confiança na vida, sabe, Sandra? Quando me dei conta daquilo, a caipirinha já quase sem gosto que eu tinha pedido, entendi que não tinha sido cem por cento verdadeiro com você.

De fato, não sinto saudades dos corpos que tive nas diversas fases da vida. Mas quando te disse isso, estava apenas pensando no corpo hedonista. No meu corpo mais jovem, quando queria apenas ser bonito, vigoroso, sexualmente atraente. Nesse tempo, quando pensava no tempo, no envelhecer, achava que sentiria saudades. Tinha medo de ser privado dos privilégios da juventude. Mas isso não aconteceu. Não sinto saudades das festas, das conquistas amorosas, dos elogios à beleza. E, como lhe falei, isso me dá um alívio. Adoro os confortos e a falta de exigências que o tempo me trouxe. Inclusive continuo me achando um homem bonito. Talvez até mais que na juventude. Não me sentir obrigado dá um vigor danado a minha pele (acho que é isso).

Mas, quando vi aquele menino brincando com as ondas, a areia e o vento, totalmente livre e feliz, sem precisar de nada, apenas do seu corpinho magro e ágil, aí sim, senti saudades.

A gente não precisa de nada, Sandra. A gente cria necessidades e fica escravo delas.

Quando era um menino, também magrinho, não gostava de gente e seus julgamentos. Eu gostava da solidão. Antes de morar no litoral, eu ia pro meio do mato, sem medo de nada. Me enfiava alí dentro, sentindo os cheiros, ouvindo os sons dos bichinhos que não via, dos passarinhos, dos galhos e folhas.

Quando vim morar perto do mar, eu adorava correr na areia como se não houvesse amanhã. Não tinha cansaço. Se pudesse, que era quando não tinha gente por perto, eu gritava, gritava, gritava. Só por liberdade. Eu entrava no mar e ficava horas sentindo o movimento das águas, a temperatura, o corpo se deixando ir e vir.

Pois, minha amiga, desse corpo eu não lembrava mais. Até ver aquele menino que eu já tinha sido e que perdi nem sei faz quanto tempo.

Que coisa, né, Sandra? A gente passa a vida lutando por um monte de coisas que não vai levar pra canto nenhum. E abandona aquilo que, de fato, nos traz alegria, intensidade, plenitude, como o nosso próprio corpo. É muita burrice.
Pois desse corpo eu senti saudades… será que essa é a palavra? Não sei. Talvez tenha sentido remorso.

– Por que você fez isso comigo?
– Por que você fez isso comigo? Perguntavam as ondas, indo e vindo, indo e vindo…
– Não sei, apenas fui, apenas fui…
Tomara que envelhecer seja a volta. Tão ruim pensar que o viver é caminho sem volta.
Abraços, minha amiga, próxima vez que chover, acho que vou dançar na chuva. Porque é só disso que a gente precisa. Um pouco de chão, um tanto de ar, lenha no fogão e água. Do rio, do açude, do mar, da chuva. E vez por outra, correndo dos olhos.

 

 

Ilustração: Meninos na Praia de Joaquín Sorolla

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