Cláudia Carvalho

Cláudia Carvalho é editora e diretora do ParlamentoPB, jornalista e radialista, mestre em Jornalismo Profissional pela UFPB


O caso Anielle e as múltiplas violências contra as mulheres

Uma menina de 11 anos foi assassinada por um homem de 35 anos que conhecia ela e a família fazia aproximadamente seis anos. Anielle Teixeira desapareceu no domingo, 5, e seu corpo, seminu, foi encontrado na madrugada da quarta-feira, 8, em uma mata na lateral do supermercado Pão de Açúcar em João Pessoa. Naquele mesmo dia, José Alex da Silva foi preso na casa de parentes em Ferreiros, interior de Pernambuco e acabou confessando ter matado a garota, mas negou o ato sexual que será investigado através de exames de DNA.

A violência desprezível e covarde desse crime chocou a Paraíba. Anielle foi atraída para a morte às 4h30 do domingo quando estava em um quiosque da praia do Cabo Branco onde a família decidiu dormir porque a tarifa do Uber estava alta na noite de sábado. É que a família, que mora no Jardim Veneza, tinha amizade com os donos do quisoque e preferiu pernoitar lá e retornar somente depois de um novo banho de mar na manhã do domingo. Não poderia prever que um pedófilo e assassino rondava o local.

O tribunal das redes sociais pensa diferente: decidiu julgar e condenar Cíntia Teixeira por ter ficado na praia naquela noite, como se fosse ela responsável pela morte da filha. Visivelmente dopada pelo transtorno causado pelo assassinato e provável estupro de Anielle, ela ainda teve que encarar mais essa estupidez. Não. Cíntia não tem culpa. O responsável é o homicida. É o ódio que boa parte de nós nutre gratuitamente contra as mulheres. Quando não são alvo de violência direta, como Anielle infelizmente foi, acabam sendo capturadas por insinuações maldosas, acusações brutais, julgamentos descabidos. Mulher é como Geni. Joga pedra nela!

Ainda haveria mais: quando foi preso, Alex tentou negar o crime e disse que a mãe de Cíntia estaria bebendo com ele de madrugada e teria visto quando a menina saiu do quiosque. O vendedor de coco não tinha sequer advogado constituído mas criou uma estória que no seu imaginário seria capaz de atrair a simpatia de parte da população para seu relato. Afinal, já havia uma movimentação para culpar Cíntia. O conhecimento empírico do assassino buscou a empatia desse público.

E para corroborar nossa tese, outro elemento: a casa da MÃE de Alex foi invadida e depredada por populares. O que ela tem a ver com o crime? Nada. Ela, inclusive, disse que acreditava na culpa do filho pelo crime, informou que ele usava drogas e que poderia até ter violentado as duas filhas. Mas, dona Marinez é mulher. Ninguém quis saber nem quem é o pai do assassino, mas, a mãe, essa entra direitinho na histeria em torno de Geni.

A música Geni e o Zepellin foi escrita por Chico Buarque em 1978 e integrou o espetáculo Ópera do Malandro. A letra fazia uma crítica à objetificação do corpo feminino e sua condenação pela sociedade. Mas, obviamente não é apenas a sexualidade das mulheres que recebe pedras. Absolutamente tudo referente ao universo feminino é apedrejado e é preciso identificar em todos os casos o real motivo da violência. Ela é causada por criminosos como Alex. Anielle, Cíntia e dona Marinez são vítimas, assim como cada uma de nós é potencialmente alvo das múltiplas violências que temos a obrigação de tentar conter.

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