Allysson Teotonio

Jornalista, publicitário e fotógrafo


O canhão e o golpe de espoleta

Ao pedirem demissão conjunta, após a exoneração do ministro da Defesa, os comandantes das Forças Armadas deram um duro recado, ou melhor, um chute com botas de pelica naquele que deveria ser, também na prática, a maior autoridade do Brasil. Os generais não cederão aos rompantes autoritários de Jair Bolsonaro. Finalmente, não se curvaram ao (reles) capitão dentro do governo. Mostraram que Bolsonaro tem o exército de um homem só.

Após o episódio, inédito na história do Brasil, alguns oficiais superiores já utilizam o termo “ladrãozinho” ao se referirem ao presidente, famoso pelos esquemas de desvio de recursos públicos nos gabinetes parlamentares dos tempos da vida fácil de deputado, que durou 30 anos e lhe rendeu um patrimônio familiar milionário.

Nessa conjuntura, portanto, podemos fazer uma leitura sobre o isolamento do presidente e suas consequências. Primeiro, é preciso dizer que um golpe militar não se faz com ameaças prévias, públicas, numa live do Facebook, como sugere Bolsonaro. Planeja-se e faz-se. Para tal, é imprescindível ter liderança, comando, articulação, coordenação, estratégia e fato determinante. O capitão não tem nada disso. O único golpe do qual Bolsonaro realmente entende chama-se “rachadinha”.

Os claros sinais das Forças Armadas contra a ruptura da ordem democrática, então, deixaria para Bolsonaro apenas a opção mais frágil. No campo institucional, as polícias militares. No campo do crime, as milícias. Mesmo assim, é improvável um golpe no Brasil atual, mesmo Bolsonaro tendo as polícias militares e as milícias na sua base político-eleitoral. Existe um certo apoio, mas isso não significa dizer que esses grupos estão dispostos a pegar em armas para satisfazer o capitão. Sim, ele ainda sonha com um golpe. Mas sonha, na prática, sozinho.

Abandonar a família, matar e morrer em troca de quê? Não estamos na romântica década de 1960. Numa sociedade cada vez mais individualista, materialista, virtual, como a de hoje, abraçar nas ruas uma causa coletiva, revolucionária é, no mínimo, démodé. Cabos e soldados fechando o STF, num jipe? Esqueça isso. Não vai acontecer nem nos sonhos mais bizarros do filho do presidente.

As polícias estão subordinadas aos estados, a grande maioria dos governos tem uma postura oposta à de Bolsonaro. Um levante nacional, começando debaixo para cima nessas corporações, é improvável. Alguns malucos podem até tentar, mas fracassariam. Não aguentaram a retroescavadeira de Cid Gomes. Vão encarar um tanque de guerra? Que nada! Terminariam presos ou mortos. E mais: o Brasil é um país gigante, não é uma ilhota, um povoado com meia-dúzia de gente. Em 1964, éramos 81 milhões de habitantes. Hoje, 212 milhões.

Sobre as milícias, não há informações precisas sobre o tamanho e o perfil do contingente, mas podemos supor que bandidos não são revolucionários, querem permanecer escondidos ganhando muito dinheiro. Não faz sentido para esse grupo se expor, correr o risco de ser preso, perder as benesses do estado paralelo do qual ele já tem o comando.

Um golpe militar também estaria na contramão da lógica da política mundial. Estamos em 2021, não mais em 1964. O golpe é anacrônico, sobretudo do ponto de vista da economia globalizada. Sem os donos do dinheiro, não há golpe. E mais: Bolsonaro é um inútil, um covarde, os donos do capital sabem disso. Os poderosos que ainda estão com ele estão de olho apenas na agenda liberal de Paulo Guedes. Bolsonaro é descartável. Sempre foi, aliás.

E vale abrir um parêntese: golpe militar em 2021 é coisa de país de quinta categoria, situado no cafundó do judas, do inferno pra dentro, com três dias de viagem de ônibus pra chegar lá. O que não é o caso do nosso país, embora o presidente o faça parecer.

Não faz também nenhum sentido bancar uma aventura golpista, criar uma instabilidade monumental no país e botar um sujeito desqualificado no topo do poder pleno sem nenhuma garantia de êxito, de lucro. Seria um tiro de canhão no escuro, e o estrago, se errasse o alvo, incalculável. Os donos do poder não são burros. Não atiram no escuro.

Diante desses cenários, algumas perguntas precisam ser feitas. Para que serviria o golpe, além de satisfazer o ego autoritário de uma pessoa psicologicamente desequilibrada, sentada na cadeira de presidente da República? Não há apoio popular, também. Pelo menos 70% não apoiam as insanidades do capitão. Qual benefício o golpe traria para a economia, para a saúde, para a educação, para a segurança pública, para as relações exteriores, para a justiça, para as políticas sociais? Nenhum, absolutamente nenhum. Golpe pra quê? Pra nada. O golpe de Bolsonaro é um meme, uma fake news pra agitar as redes sociais. Algo que ele sabe fazer muito bem. Na vida real, uma utopia, um delírio.

Mais da metade do governo acabou, não existe nada a comemorar, a vida do povo não melhorou, a das empresas também não. A pandemia avança, e o governo não acompanha o ritmo, é alheio, não sabe o que fazer. Dizem que o caos é o alicerce do golpe. Até faz sentido esse clichê, mas Bolsonaro não tem liderança, não tem comando, não tem competência. Até como golpista, fraquejou. O governo é um fracasso não por culpa dos outros, mas por culpa exclusivamente dele.

E tem mais. Bolsonaro é refém do Centrão, dos partidos que vendem a mãe pelo poder. Se pisar na bola, o capitão cai. Não tem força para dar golpe no Centrão, corre o risco de ser golpeado. Também não tem nada para oferecer como solução ao caos. Aos olhos da grande maioria da população, a rejeição já está em 59%, o caos aumentaria em suas mãos. Motivos para essa leitura não faltam.

A economia vai mal, o desemprego está em alta, 325 mil mortos na pandemia, não há vacina para todos os vivos, a saúde em colapso. Ninguém, em sã consciência, poderia endossar um golpe nessa conjuntura. Somente Bolsonaro, obviamente.

O Brasil já está no fundo do poço. Foi Bolsonaro quem nos colocou lá, e o governo não sabe o que fazer. Se houvesse um golpe agora, até o poço deixaria de existir. E não podemos perder o poço. Sem ele, não há como chegar à superfície. O poço é a democracia. O poço é a liberdade. O poço é o instrumento que nos dá o poder de colocar outro presidente, um à altura do Brasil. O poço é o caminho para o impeachment. O poço é o último fio de esperança que nos resta. Temos que nos agarrar a ele.

Mas há um detalhe importante do qual não podemos esquecer: relaxar, jamais. Agir sempre. Esperança sem ação não vai nos fazer sair do fundo do poço, acordar desse pesadelo. A sociedade brasileira precisa reagir, mobilizar-se, criar o ambiente político necessário para pressionar o Congresso a fazer o dever de casa. Crimes de responsabilidade já têm de sobra na coleção de Bolsonaro. É possível, sim, emergir. Para nos tirar do fundo do poço, só falta a corda. Levanta, pula daí, pega a corda. Bora, Brasil, acorda!

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