Nelson Barros

Nelson Barros é psicoterapeuta e escritor.


Não Vai Dar Tempo

“…Alice sequer achou assim tão estranho ouvir o Coelho dizendo: Ai, ai! Aí, ai! Vou me atrasar. Porém, quando o Coelho tirou o relógio do bolso do colete, consultou as horas e saiu em disparada, Alice se levantou depressa, pois lhe ocorreu de lampejo que jamais vira coelho de colete, muito menos coelho com relógio no colete.”

Lewis Caroll – Alice no País das Maravilhas

Não, Coelho Branco, você nãos está atrasado. Apenas não vai dar tempo.

Relaxe, não vai dar tempo.

Você não vai sair dessa tendo feito tudo que planejou. Ou que sonhou.

Vai deixar um monte de livro que comprou, mas não leu. Aqueles que você guardou, achando que iria reler, então, nem se fala.

Alguém te mandou um vídeo de 25 minutos no WhatsApp. Você deixou para ver depois… apague logo. Só vai ocupar espaço na memória do seu celular e nenhum espaço na sua memória.

A lista dos lugares que você deseja conhecer, te digo, não vai rolar. Mas nem por isso deixe de fazer a lista. Viver sem sonhar é muito duro. Se não fosse o sonho, por que eu teria comprado (há mais de 10 anos) aquela caixa cheia de papéis lindos para origami, que um dia vou aprender a fazer?

Alguma pessoa querida partirá sem que você tenha tido tempo de se despedir, de dizer o quanto a amava. Você sempre vai achar que poderia ter feito alguma coisa ou um pouco mais. Não se culpe. É assim mesmo. Mesmo quando alguém postar que a gente nunca deve perder a oportunidade de dizer “eu te amo”. A gente perde muitas oportunidades como essas na vida. Só não perde a oportunidade de provocar culpa nos outros. Ou arrependimentos.

Não se torture tanto por procrastinar. O documento que precisa ser renovado, a monografia de finalização de curso, o tratamento dentário. A gente sabe que tem que fazer essas coisas, mas só deixa para depois porque tem coisa melhor pra fazer. Ouvir música, ver um filme, dar um cochilo.
Sabe aquela receita de bolo que você anotou num pedacinho de papel e que volta a guardar toda vez que arruma a gaveta? Pois então, volte a guardar. Não jogue fora. Mas também saiba que pode ser que essa receita nunca passe do papel pro fogão.

Roupa que está sendo guardada, esperando caber no corpo… criatura, isso não te pertence mais!
As mil e quinhentas fotos no celular, esperando virar álbum. Casamento da sobrinha, formatura do irmão, viagem a Paris. Não quero ser chato, mas esse celular vai cair na privada ou vai ser roubado ou vai simplesmente morrer. Você vai sofrer um pouquinho com as fotos perdidas e se prometer que vai procurá-las na nuvem. Mas não vai.

Fez uma arrumação na casa e encaixotou umas coisinhas lindas, presentes de amigos queridos, souvenires, panelinhas de ‘finger food’, lembrancinhas de casamento… é só questão de tempo. Se você não se desfizer, quem herdar, vai.

As conchinhas que foram catadas na praia para virar uma cortina, a visita tantas vezes ‘vamos marcar’ para algum amigo de longa data ou distância, o piano desafinado, as aulas de francês, a hortinha na varanda, o projeto de cuidar de velhinhos num asilo. Certamente algumas dessas coisas não se concretizarão. E ninguém vai reencarnar só para resolver essas pendências.

A vida é isso mesmo. Um álbum de figurinhas que não se completa. Um filme que termina no meio, por mais longo que seja.

Quando chega o minuto final, não deu tempo nem de ler direito o manual.

 

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