Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Mostra do cinema expressionista alemão: Fritz Lang é destaque com três obras-primas 

A fase alemã de Fritz Lang tem em A morte Cansada (1921), Metrópolis (1927) e M, O vampiro de Düsseldorf (1931) a maior expressão de sua virtuose como diretor e roteirista. Esses três filmes estão na Mostra Expressionismo Alemão na plataforma Petra Belas Artes à la Carte desde 18 de março. São oito obras de mestres como Friedrich W. Murnau, representado por Nosferatu, uma sinfonia de horror (1922) e A última gargalhada (1924); Robert Wiene com O gabinete de Dr. Caligari (1919), filme marco do expressionismo, e As mãos de Orlac (1924); e um único filme de Georg W. Pabst, A caixa de Pandora (1929).

A obra de Lang é exemplar na influência do estilo visual expressionista alemão sobre o cinema noir americano dos anos 40 e 50. Fritz Lang construiu uma carreira cinematográfica singular, tendo contribuído com seus filmes para dois momentos significativos do cinema, o expressionismo alemão e o cinema noir americano. Abordarei aqui dois dos três filmes de Lang nessa mostra: A Morte cansada e M, O Vampiro de Düsseldorf. No primeiro, a Morte (Bernhard Goetzke) – em alemão a morte é um personagem masculino – propõe a uma amante desesperada (Lil Dagover) devolver seu amado se ela conseguir salvar pelo menos uma de três vidas em perigo. 

A ação é interrompida para que acompanhemos a história dessas três vidas em risco, cada uma se passando em épocas e lugares diversos: uma exótica Pérsia, uma Veneza renascentista e uma China Imperial. Nesses episódios, os amantes se encontram sempre em conflito com um tirano que os ameaça. No embate final entre o amor e a Morte, esta sempre termina vencendo.  A força das imagens de A morte cansada, num estágio do cinema onde o uso da câmera imóvel era um imperativo e as cenas externas rodadas à noite um complicador, Lang faz uso magistral do recurso à “noite americana” onde a Lua tem papel fundamental na narrativa.

Num cenário fantasmagórico, um velho farmacêutico colhe ervas para socorrer a jovem que prefere se envenenar para se juntar ao amado morto. Colher ervas sob a luz da lua cheia, segundo anuncia a legenda, atraem misteriosos poderes. Árvores inclinadas com galhos e raízes retorcidas em silhueta e a lua cheia ao fundo compõem a cena. A associação entre a Lua, a morte e a regeneração das almas é ressaltada igualmente por teóricos como Gilbert Durand e Mircea Eliade nas suas teorias do imaginário. A luz lunar, misteriosa, tranquilizadora e poética, é também fria, melancólica e está igualmente associada à doença e à morte, elementos frequentes nas narrativas do expressionismo alemão com toda a sua carga simbólica. 

O impacto visual das cenas de A Morte cansada pode ser exemplificado quando a jovem vai à procura da Morte: é uma escadaria com incontáveis degraus que ela deve galgar para o encontro. A amplidão da escada antecipa seu sacrifício para escapar do destino. A iluminação em chave alta sobre a escada contrasta com a moldura ogival sombreada e destaca a figura da moça e a da Morte, esta em vestes acentuadamente negras.  A diferença de tamanho dos dois personagens reforça a impotência da jovem diante da inexorabilidade do fim.

Baseado em fatos reais, M, o vampiro de Düsseldorf, com roteiro de Fritz Lang e Thea von Harbou, sua segunda mulher, conta a história de Kürten (Peter Lorre), um infanticida que aterrorizou a cidade, deixando em pânico não só as famílias – temerosas por suas crianças, as autoridades – fortemente pressionadas pela sociedade por sua captura, como também o submundo do crime – que passou a sofrer um cerco feroz da polícia. A paranoia se instala: a propósito de qualquer suspeita, denúncias anônimas e acusações gratuitas vêm à tona, provocando uma histeria coletiva e um clima de horror entre os quatro milhões de habitantes de Düsseldorf.

É quase unanimidade entre os teóricos do cinema alemão desse período que Fritz Lang, de todos os cineastas alemães, foi o que mais sofreu a influência do teatro de Max Reinhardt. Arquiteto de formação, Lang trabalhou habilmente o realce dos contornos e relevos dos objetos ou os detalhes dos cenários lançando mão das múltiplas possibilidades da iluminação para transformar e deformar a plástica das imagens. Em M, a fotografia sombria é uma dominante em todo o filme. Lang tira proveito aqui de dois longos escurecimentos para nos imergir nos num estado de tensão e medo que a escuridão provoca em nossa psique.

Os fotógrafos de Lang, Fritz Arno Wagner e G. Hathje, traduziram imageticamente a atmosfera de paranoia que o filme narra. A maioria das ações ocorre em locais pouco iluminados. São corredores, labirintos, subterrâneos, ambientes onde raramente a luz é distribuída de modo uniforme. Há sempre áreas sombrias dominando o quadro e luzes duras projetando sombras acentuadas. Esta técnica de iluminação dominará toda a sequência do “tribunal”, imprimindo à cena uma atmosfera funesta. Os personagens desse insólito tribunal são assassinos, ladrões e golpistas de toda sorte, oriundos da escória social. Aqui, iluminação e narrativa se imbricam para construir uma atmosfera medonha. Invertendo as expectativas, o tribunal subterrâneo passa a ser a grande ameaça. O terror agora emana daquelas criaturas envoltas em sombras e que clamam vingança.

No que diz respeito ao tratamento temático e visual do filme, M, aponta para o que viria a ser o cinema noir americano da década seguinte e do qual Lang foi um grande expoente.  M, o vampiro de Düsseldorf reúne alguns elementos narrativos e visuais que se tornaram peculiares àquele cinema: histórias de assassinatos, perseguições, tramas mórbidas, trabalhadas a partir de uma iconografia visual, que tem na paisagem urbana um cenário privilegiado. A iluminação, abundante de violentos contrastes entre luz e sombra, torna interiores e ruas da cidade locais inóspitos e em permanente tensão. 

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