Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Misoginia e terror do Santo Ofício são narrados em “Silenciadas”, de Pablo Agüero

Lançado em março deste ano e disponível na Netflix, Silenciadas (Akelarre, 2020, 90 min.), dirigido pelo cineasta argentino Pablo Agüero, revolve um dos terríveis crimes da Inquisição nos territórios bascos na França de 1609, quando seis jovens são acusadas de bruxaria. A partir daí, vamos acompanhar sessões de tortura que as levam a “acreditar” no ritual satânico que jamais ouviram falar. Na esperança de escapar da morte, elas se comprometem realizar o Sabbat, cerimônia que evoca o demônio. Baseada em uma história real e narrada no livro A feiticeira, de Jules Michelet, Silenciadas é uma produção que envolve a Espanha, Argentina e França.

A cena inicial de Silenciadas apresenta enormes fogueiras cujas labaredas consomem corpos humanos sob o olhar condescendente de autoridades eclesiásticas. O fogo será um elemento presente em diversos momentos da narrativa com suas significações ambivalentes, seja pelas fogueiras inquisidoras ou como luz e calor benfazejos nos instantes de frio e de trevas. Aqui, o fogo não se apresenta como símbolo de sabedoria ou dos bons augúrios de uma luz natural; não é a luz solar, divina, apaziguadora do espírito. Entre os quatro elementos, o fogo é o único cujo contato físico é deletério, daí o horror que provoca à natureza humana e animal.

Um condado da costa basca espanhola recebe a vista de um emissário do rei, eclesiásticos e soldados. Ela é habitada na maior parte do tempo por mulheres cujos homens amiúde estão no mar. A comitiva é recebida pelo jovem e atabalhoado padre Cristóbal (Asier Oruesagasti). As jovens irmãs Ana (Amaia Aberasturi) e María (Yune Nogueiras) e suas amigas Maider (Jone Laspiur), Olaia (Irati Saez de Urabain), Oneka (Lorea Ibarra) e a pré-adolescente Katalin (Garazi Urkola) vivem uma vida tranquila, entre o trabalho de tecelãs e os passeios pela floresta e rochedos da costa para contemplar o mar e a partida dos pescadores, além dos ritos e celebrações locais. Seu cotidiano pacato é violentamente assaltado pelo terror inquisitorial, quando são presas e acusadas de bruxaria.

O Sabá das Bruxas, como eram chamados esses rituais, aconteciam na madrugada e significava a comunhão entre elas e o diabo, como registrados nos livros da chamada Santa Inquisição. A crença nessa parceria levou o Santo Ofício a queimar vivas na fogueira milhares de mulheres que confessavam, sob tortura, o que não praticavam e nem sequer conheciam: magia negra, drogas alucinógenas, banquete e relações sexuais com Lúcifer. O termo, de origem judaica (shabat), revela o forte sentimento hostil daquele período ao judaísmo. 

Em Silenciadas, a suspeição de bruxaria que recai sobre as seis garotas tem origem nos seus inocentes passeios à clareira do bosque em noites de lua. As sessões de inquirição, lideradas por Rostegui (Alex Brendemühl) são insidiosas e ambíguas, buscando fazê-las confessar o que elas desconhecem. Como num tribunal de exceção, todo jogo sujo é permitido: avaliar as reações das acusadas e classificá-las (“sorriso perverso”, “posição obscena das pernas”) ou até insinuar que uma ancestral canção folclórica possa ser uma invocação a Belzebu. Elas tentam ganhar tempo até a volta dos pescadores da comunidade, o que pode salvá-las, já que o Sabbat só pode ser realizado na lua cheia.

Pablo Agüero (44 anos), cineasta e roteirista, começou a filmar com 15 anos, e seu segundo curta-metragem Primera Nieve (2006) recebeu prêmio do júri em Cannes, o mais prestigioso festival de cinema do mundo. Como prêmio, Salamandra, seu primeiro longa, tem estreia na Quinzena dos Realizadores do mesmo festival em 2008. Foram mais quatro longas entre eles, Eva não dorme (2015) até chegar a Silenciadas, em 2020. Das nove indicações recebidas, o filme foi agraciado com cinco prêmios no 35º Prêmio Goya 

Com uma direção segura, em Silenciadas Agüero cria um ambiente aterrador e claustrofóbico, concentrando a maioria das ações na cela das condenadas, na sala da inquisição e na taberna onde a comitiva faz suas refeições, com muitas cenas noturnas, planos fechados e numa iluminação que explora o claro-escuro realista das cenas (iluminadas por tochas e velas), materializando nessas imagens o horror das garotas face à tragédia iminente. São momentos de tortura psicológica e física, perversão e desejos inconfessos de integrantes de uma instituição religiosa repressora (e reprimida) que, ironicamente, levam as jovens a conhecer e representar o ritual satânico entrando no jogo perverso dos seus algozes. 

O fato real aconteceu na França basca quando a Inquisição fez cinzas, segundo registro histórico, de mais de seis mil pessoas, na sua maioria mulheres. O juiz Pierre de Rosteguy de Lancre, recriado no filme de Agüero no personagem Rostegui, foi um dos mentores da barbárie, mas teve a cumplicidade do governo francês de Henrique IV. De Lancre deixou registrado esse genocídio em livros que escreveu até 1631, ano de sua morte. Adaptado para a Espanha, o filme de Agüero é falado em euskera (língua basca), e fundamenta-se também em relatos da Inquisição espanhola.

Pensando as atrocidades da Inquisição noutras sociedades em épocas e contextos sociais diferentes, vamos encontrar em países de regime autoritários, à direita e à esquerda, laicos ou religiosos, terror semelhante ao longo da história da humanidade. A partir de um bode expiatório (uma raça, uma etnia, uma classe social, uma ideologia, uma religião etc.), pode-se encontrar justificativa de qualquer sorte para perseguir, prender, torturar, eliminar em nome da moral, dos bons costumes, de um ideal de raça ou de uma imaginária supremacia religiosa, entre outras razões consideradas nobres por um grupo hegemônico. Ideias que vão e voltam mesmo em sociedades democráticas pelo desejo mórbido daqueles que ensejam pô-las em prática.  

VEJA TAMBÉM

Comentários

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.