Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Luta de classes e misticismo na Índia narrados com realismo cruel em “Tigre Branco”

Em A classe operária vai ao Paraíso, produção italiana de 1971, dirigida por Elio Petri, o operário Lulu (Gian Maria Volonté) só toma consciência da exploração e alienação do trabalho ao qual é sujeitado quando um acidente na linha de produção o faz perder um dedo. De operário-padrão, e baliza para as metas a serem alcançadas pelos demais trabalhadores, passa à militância no sindicato e ao embate raivoso contra o patronato. Em O Tigre Branco (The White Tiger, 2021, 127min), do norte-americano Ramin Bahrani, baseado no romance homônimo do escritor Aravid Aranga, nosso herói (ou anti-herói) Balram Hawai (Adarsh Gourav) leva a luta de classes para uma vingança na esfera pessoal. O filme pode ser conferido na Netflix.

A jornada de Balram tem início em Nova Deli em 2007 com um outro tipo de acidente que mudará definitivamente sua forma de enxergar a relação entre empregado e patrão. Balram narra e comenta em inúmeros flashbacks sua própria história e os costumes de sua Índia Natal, um país com 36 milhões de deuses para se venerar e diversas castas conferindo e legitimando diferenças sociais e preconceitos milenares. Avançamos para 2010 e nos deparamos com um Balram empresário vendo uma boa oportunidade de impulsionar seus negócios (ainda não sabemos quais) com a visita de um primeiro-ministro chinês a Bangalore, o Vale do Silício da Índia. Ele escreve um e-mail ao visitante contando parte de sua história de empreendedor, prometendo revelar algumas partes de sua jornada no momento certo. Na realidade, o e-mail é um pretexto para narrar sua história para nós espectadores.

Voltamos no tempo para a sua aldeia, onde Balram menino, inteligente e perspicaz, vive com a família, “nas trevas”, como a gente miserável do lugar explorada com violência pelo senhorio da cidade que se apropria de um terço de tudo que seus moradores produzem. Adulto, decide se tornar o chofer do jovem abastado Ashok (Rajkummar Rao), filho do déspota senhorio (o “Cegonha”) de seu vilarejo e recém-chegado dos EUA para trabalhar com a família na exploração de carvão. Com 300 rupias emprestados da mercenária avó, parte para Dhanbad onde frequentará uma autoescola e, finalmente, atingir seu primeiro objetivo.

É apenas o começo do astucioso Balram, agora dedicado e leal motorista do rico Ashok. Tem início aí uma relação permeada de ambiguidades, de promessas de amizade e de pertencimento a uma família abastada, mas também impregnada de uma violenta forma de exploração que inclui até xingamentos e violência física. No Brasil, temos o conhecido “é como se fosse da família” legitimando o abuso e a exploração do trabalho doméstico. O próprio Ashok, jovem liberal, e sua namorada Pink (Priyanka Chopra), formados nos EUA, se mostram incomodados com o tratamento dado pelo pai e capataz da família ao subalterno Balram e com a sua (aparente) falta de ambição na vida. Mas as coisas não são tão simples quanto parecem.

A princípio, Balram se mostra leal e bem adaptado a sua condição de servente, tornando-se com o tempo fiel companheiro do jovem patrão Ashok, mas igualmente se descobrindo pau-para-toda-obra e não apenas o chofer número dois da família. Contudo, para ser o número um, não tem pudor de denunciar seu colega mulçumano e lhe tirar o posto, revelando seu caráter arrivista. Nós espectadores, no entanto, criamos forte empatia pelo protagonista, porque o roteiro cria artimanhas que nos leva a isso, nos apresentando Barlram no trabalho escravo no vilarejo da infância e da maioridade até a exploração pelo mesmo patrão na cidade grande.

O Tigre Branco aborda de forma realista e sombria uma Índia cheia de contrastes. Uma Índia, dividida em castas, onde uma ampla faixa da sua população vive à margem do consumo de itens urgentes de sobrevivência para qualquer sociedade civilizada, e uma Índia de empresários, industriais e políticos corruptos – a líder socialista recebe propina da família de Ashok para deixá-los explorar carvão nas minas do governo sem o devido pagamento de impostos.

Como diretor, o estadunidense Ramin Bahrani de origem iraniana estreou em longas-metragens com Man Push Cart (2005) e seguiu com Chop Shop (2007), Goodbye Solo (2008), A Qualquer Preço (2012), 99 Casas (2014), Fahrenheit 451 (2018) e, agora, aos 45 anos, com O Tigre Branco, tem seu maior êxito de público e crítica. O indiano Adarsh Gourav, que interpreta magistralmente Balram, é músico e vocalista da banda Oak Island. Já Rajkummar Rao, 36 anos, o jovem patrão Ashok, é um premiado ator indiano de umas das cinematografias mais produtivas do mundo, maliciosamente alcunhada de Bollywood (uma referência a Bombaim e Hollywood), a maior indústria indiana de cinema pelo número de produções e sua ampla penetração no mercado do país.

O tigre branco que dá título ao filme é uma referência a um tipo de tigre que nasce apenas uma vez a cada geração. Essa raridade é uma alusão à ínfima quantidade de pessoas que se rebela, que tem força de vontade para fugir de um ambiente inóspito e opressor, ganhar a liberdade e chegar ao topo, como Balram. A exemplo de Parasita, filme sul-coreano de Bong Joon-Ho (2019), a obra de Ramin Bahrani é uma crítica ácida ao capitalismo predador. Através do protagonista Balram, que sai do servilismo abnegado para trapacear os patrões, o diretor defende a tese de que o crime ou a política são os únicos meios para um pobre deixar a parte baixa e chegar ao topo da pirâmide. E assim faz Balram, para se tornar um empresário de sucesso. Numa cena emblemática, Balram desmaia ao se deparar pela primeira vez com um tigre branco num zoológico de Bangalore. Ouvimos sua voz citando o poeta mulçumano Iqbal: “Quando reconhece o que é belo nesse mundo, você deixa de ser escravo.”

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