Lojistas vendem algodão colorido falsificado em João Pessoa

O algodão colorido se tornou alvo de falsificação na Paraíba. Roupas e acessórios estão sendo produzidos com tecido tingido e revendidos em pontos turísticos de João Pessoa até pela metade do preço como se fossem originais. Produtores e comerciantes denunciam a concorrência desleal e temem prejuízos em toda cadeia produtiva envolvida, desde agricultores, artesãos, fabricantes e revendedores.

As imitações de algodão colorido encontradas pela reportagem nas vitrines não possuem informações que revelem se tratar de algo similar e alguns produtos sequer têm etiquetas informando o fabricante. Quando compradores, principalmente turistas, perguntam se há peças em algodão colorido alguns vendedores mostram produtos com preços mais atrativos, mas feitos com tecido pintado, que podem ser desbotados e manchados na primeira lavagem.

“Há uma concorrência desleal. Uma blusinha falsificada é vendida por R$ 25 e em algodão colorido é acima de R$ 40. É mais caro porque o algodão colorido custa o dobro do preço no campo. Temos que fazer investimento seis meses antes da matéria-prima. Começamos a pagar em maio para ter o produto em fevereiro. Isso acarreta juros e tem que pagar bem ao homem do campo para ele plantar sempre, senão vai plantar o algodão branco que é mais fácil de vender”, afirmou a diretora do Grupo Natural Cotton Color, a estilista Francisca Vieira.

Imitação do topázio

O produto falsificado é uma imitação do tipo topázio, de cor caramelo, considerado mais fácil de imitar. Contudo, este tipo passou por experimentos há dois anos no Estado, mas não foi produzido para comercialização e não existe no mercado. Só são produzidos na Paraíba dois tipos: o algodão colorido safira, que é da cor da pele, o chamado nude, e o outro tipo é o rubi, semelhante à cor de telha.

“Se colocar um pingo de água sanitária a peça fica branca, volta ao original. No algodão colorido pode até manchar, mas não fica branco. Um turista não tem como identificar, não vai chegar com uma garrafa de água sanitária na mão”, afirmou Francisca Vieira. A malha das peças falsificadas também é mais macia, pois o algodão colorido é mais crespo. “Já tive cliente dizendo que minha malha era falsificada porque comprou em outro local e achou a malha melhor. Temos que esclarecer a população sobre isso”, alertou.

Alguns revendedores do produto falsificado alegam que os próprios turistas pedem produtos mais baratos e aceitam comprar peças similares. Em um dos estabelecimentos, algumas peças ganharam etiquetas informando que o produto possui 80% de algodão colorido e 20% similar. Há também vendedor que alegue que ter produtos “menos falsificados”.

“Vendemos e não recebemos queixa. Quem compra sempre volta. Mas tem similar que é tingido tão forte que quando lava sai a cor. Tem uns produtos muito, muito falsificados que, quando lava, mancha a roupa todinha. Mas eu vendo sandália que pode lavar que não sai a cor”, alegou a vendedora de um box de artesanato, Yasmin Fernandes.

Ela contou que diz aos clientes que os produtos não são de algodão colorido. “O cliente pergunta se tem mais barato e a gente diz que tem, mas que não é 100% algodão colorido, é misturado com o tingido. A gente diz a verdade. O algodão colorido é caro e os clientes não querem comprar. Fabricamos assim mais pela questão do preço mesmo”, contou.

Yasmin Fernandes explicou que a diferença de preço de camisas parcialmente originais para outra que é feita em 100% de algodão colorido é de R$ 15. Para um vestido a diferença é de R$ 20.

Associação quer esclarecimento

Os produtores de confecções e acessórios com algodão colorido vão procurar a Polícia e o Ministério Público para coibir a falsificação dos produtos. A proprietária da Natural Cotton Color, Francisca Vieira, disse que também procurou a Prefeitura de João Pessoa para que apóie na divulgação de informações aos turistas sobre como identificar os produtos autênticos.

“Estamos tentando alertar o turista o mais rápido porque esta é a abertura do verão. Pedimos à Secretaria de Turismo e Funjope uma tenda para colocar material informativo, material da Embrapa informando o que é algodão colorido, expor as marcas que têm acompanhamento no campo, quais são as cores que estão no mercado e disponibilizar peças para o turista sentir a textura”, afirmou.

Ela disse que a ideia é colocar pessoal na Feirinha de Tambaú e no Mercado de Artesanato conversando com os turistas para que eles saibam identificar a peça falsa na hora da compra. “Já conversamos com órgãos da prefeitura, que é quem dá o alvará dos boxes. O grande lesado é o turista”, destacou Francisca Vieira.

Comerciantes perdem competitividade

Os comerciantes que revendem produtos feitos com algodão colorido se queixam que estão perdendo competitividade e recebem reclamações de clientes que tiveram os produtos desbotados e manchados. Para justificar os preços mais altos, os que revendem as peças originais deixam no estabelecimento mostras do algodão colorido e até fotos de todo o processo de plantação e colheita.

A funcionária de um box na Feirinha de Artesanato de Tambaú, na orla da Capital, Walqueline Paulino, contou que a nova concorrência exige mais conversa com o cliente para orientar sobre o produto.

“Mostramos fotos de agricultores, da plantação, para mostrar que é colorido naturalmente, não é tingido, e tem o selo da Embrapa. Sentimos muito a concorrência porque às vezes vende um vestido de R$ 105 e tem loja que vende falsificado por R$ 70. Mesmo não sendo do mesmo modelo, mas as pessoas chegam aqui dizendo que encontraram vestido longo mais barato. Reclamam do preço e depois da qualidade porque compram em outro local e depois dizem que desbotou e temos que explicar que o que desbota é o tingido. Prejudica a imagem do produto”, relatou.

Ela contou que a as peças de seu estabelecimento são feitas com algodão cultivado em Araçagi e fabricadas no Centro de João Pessoa. “De fazer o tecido até vender tem um custo que não tem como ter o mesmo preço de quem pinta uma malha branca e vende. O problema é que nem todo mundo entende e não quer levar blusa acima de R$ 40 se encontra em outro lugar por R$ 20. Isso prejudica”, afirmou.

Embrapa desenvolve um `teste rápido´

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está desenvolvendo um teste rápido para identificar produtos falsos vendidos como se fossem de algodão colorido. A ideia é criar um produto químico reagente que ao entrar em contato com o tecido acuse a falsificação.

O pesquisador Odilon Ribeiro da Embrapa Algodão, que é sediada em Campina Grande, explicou que ainda não há resultados das pesquisas e que, por enquanto, é preciso identificar ainda através do comprimento da fibra e das cores disponíveis.

Já o analista da Embrapa Valdenilton Cartaxo, disse que o problema já foi denunciado no comitê gestor do algodão colorido, mas que não foram dadas provas concretas. Mesmo assim, ele disse que há tendência de produtos pintados vendidos no mercado e, por isso, alguns produtores parceiros da Embrapa adotaram uma etiqueta da Embrapa certificando a autenticidade do produto.

“Essas denúncias têm existido, e empresas se usam desse artifício de tingir e vender por preço menor, mas a Embrapa não pode correr atrás dessas empresas. Temos tecnologia e um trabalho feito junto a duas cooperativas, a Natural Cotton Color, de João Pessoa, e a Coopnatural, de Campina Grande. Essas associações produzem fio, tecido, faz a malha e transforma em peças. Precisamos do teste para ajudar a tecnologia limpa e pura e não podemos deixar que pessoas entrem por trás e tirem quem está de forma legal”, afirmou.

Correio da Paraíba

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