Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


‘Identidade’ aborda o tema da negação da própria raça e o sonho da democracia racial

Baseado no romance Passing, da afro-americana Nella Larsen (1891-1964), ‘Identidade’ (EUA, 2021, 99min), no cardápio da Netflix, foi adaptado para as telas pela atriz inglesa Rebecca Hall. O filme conta a historia do encontro de duas velhas amigas Irene Redfield (Tessa Thompson) e Clare Kendry (Ruth Negga), “negras de pele clara” que se encontram por acaso depois de anos, em Nova Iorque. A primeira tenta circular despercebida no cotidiano abastado de Manhattan dos anos 1920; a segunda, literalmente, se passa por branca, mas não se encaixa nesse universo e sente falta do seu mundo de origem.

O título original do livro e filme, Passing (literalmente se passar por) dá conta melhor do enredo. As duas amigas se encontram, por acaso, num café luxuoso de Manhattan freqüentado por brancos ricos. A bela Irene está frequentemente sobressaltada, escondendo os grandes e expressivos olhos sob chapéus da moda. Clare, por sua vez, tem cabelos pintados de louros e visivelmente alisados. Se tomarmos o enredo como realista, esses detalhes comprometem a sua verossimilhança. Claro que Rebecca Hall tem consciência disso e nos faz ler o que vemos na tela quase como uma alegoria.

Tanto a diretora do filme como a autora do livro discutem a questão da negação de uma raça frente a uma violenta discriminação nos EUA dos anos 1920 que levaram milhares de negros a emigrarem do Sul escravagista para Chicago, principalmente, e Nova Iorque, com auspiciosas promessas de emprego e o sonho da democracia racial. No Sul dos Estados Unidos, o linchamento de negros era rotina. Por isso, com sua maquiagem civilizatória, a região Norte terminou atrativa para a gente afro-americana que necessitava fugir da barbárie, resvalando, inevitavelmente noutra armadilha: a exploração do trabalho e a segregação racial. 

O enredo de ‘Identidade’ tem início com esse encontro de duas velhas amigas 12 anos depois. Os conflitos vão surgindo ao longo do seu desenvolvimento com o envolvimento de Clare com a família de Irene no seu afã de retornar às raízes até então negadas. Um processo de não aceitação de sua cor frente à segregação infligida à população de pele negra da América. Não deixa também de ser um meio de ascensão social o casamento de Clare, fingindo ser branca, com o empresário branco John Bellew (Alekander Skarsgard), que paradoxalmente diz odiar negros, ultrajando Irene quando são apresentados pela primeira vez . 

Da primeira cena de ‘Identidade’, e ao longo de toda sua narrativa, o racismo é exposto, às vezes de forma sutil ou violentamente explícito na narrativa verbal. Numa loja de Manhattan, onde Irene tenta comprar um presente pro filho, uma mulher branca escolhe uma boneca negra para sua sobrinha porque “as únicas pessoas de cor que a garota viu foram os criados.” A violência física é narrada cotidianamente por Brian Redfield (André Holland), marido de Irene, aos filhos com histórias de linchamentos de negros no Harlem. Brian é um médico negro bem sucedido que atende no bairro e Irene se dedica a ações beneficentes na Liga para o Bem Estar dos Negros.

O reaparecimento de Clare, como pretexto para um retorno ao seu meio vai abalar as convicções de Irene e estremecer seu casamento. Ela nutre por Clare um misto de fascínio (pela coragem da amiga de se passar por branca) e rejeição (por sua opção de embranquecimento). Apesar de não ter respondido as cartas de Clare solicitando um encontro, Irene fica radiante com a sua visita e o estreitamento da relação das duas parece incomodar o marido. A tensão (sexual, inclusive) que se estabelece entre os três aponta para a configuração de um triângulo amoroso. No livro (autobiográfico) da escritora Nella Larssen, de 1929, ela questionava o preço que as pessoas negras tinham de pagar por negarem sua cor.     

Esta negação, e suas consequências na vida da personagem Clare, em particular, é o mote principal do livro e do filme. Com um formato de janela 4 para 3, no modo do cinema produzido até início dos anos 1930, e uma fotografia em preto & branco deslumbrante, o filme de Rebecca Hall nos imerge na atmosfera da época construída pelo imaginário que o cinema, sobretudo o hollywoodiano, nos legou. A atriz ganhou notoriedade no papel de Vicky, em ‘Vicky Christina Barcelona’ (2008), de Woody Allen, que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro. ‘Identidade’ é o seu primeiro filme como diretora.

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