Adriana Crisanto

Jornalista profissional (DRT/PB n. 1455/02-99). Especialista em Jornalismo Cultural, mestre em Serviço Social (C.Política) pela Universidade de Salamanca e Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com atuação na imprensa local.


Franco era Martinho

Já foram tantos comentários sobre o jornalista Martinho Franco, falecido este mês em João Pessoa. Muitos falaram de sua altura, sim ele era gigante em estatura, acho que eu deveria bater na cintura dele. Mas, ele era muito maior por dentro. Sorriso fácil e boa conversa com todos que se atrevesse a “bater um papo”. Paciência, inclusive, para falar com uma foca como eu no Jornal A União, onde comecei a exercitar e aprender a prática jornalística. Martinho era amigo de meu pai, Edson Monteiro da Silva e vinha sempre na oficina onde meu pai trabalhava incansavelmente de manhã até a noite no conserto de rádios, gravadores, televisão e toca discos.

Quando ele me viu na União logo disse em alto e bom som para toda redação escutar: “Oxi isso é a filha de Edson Monteiro”. Eu com sorriso amarelo de vergonha virei e disse: “Sim sou eu. Tudo bem Martinho?” Daí o papo não parou… Ele perguntou por todos de lá casa, falou de Luiza sua filha, da Fazenda, de Mônica minha irmã e me deu muitos conselhos, que escutei fixamente um a um. Um dos mais sábios de toda essa prosa foi esse:

“Sabe Adriana, mas fazer jornalismo ético sem se envolver na politicagem sombria neste país é de extrema envergadura para um ser humano que tem uma paixão inveterada pelo sonho de fazer um jornalismo profissional. Eu disse a Luiza que ela tem que ir para a redação para aprender”, contava Martinho. Ele dizia que o jornalismo de redação vicia e “é um micróbio dentro da gente”.

Martinho também disse que chega um tempo em que o micróbio se cansa de ser chacoalhado, envergado, desprezado e humilhado. Daí olhei para ele e perguntei: Qual o segredo para manter esse micróbio sempre vivo Martinho? Ele colocou a mão no meu ombro e disse baixinho ao pé do ouvido: “Sendo franco com você. Não se envolva, porque um dia todos eles vão passar e sábio é aquele que sabe guardar para si o que vê e finge que não viu”. E logo soltou uma gargalhada e saiu.

Assim era ele, de uma espontaneidade maior que seu tamanho. Pois é, Martinho, triste dos focas de hoje que não tiveram um Martinho Franco para escutar suas histórias, pobres desses novos micróbios que nascem acreditando que conhecem e sabem de tudo na vida. Desde que entrei no jornalismo de redação aprendi muito com os “jornalistas dinossauros”, aqueles que tem muita experiência tem muito a nos ensinar. Esse diálogo entre os novos profissionais e os antigos deveriam sempre existir, pois faz parte da essência do jornalismo.

Hoje observo muitos jovens profissionais se enveredar na profissão cheios de vontade, com ideias brilhantes, se corrompendo fácil e com muito pouca maturidade profissional, emocional, psíquica e que desprezam o conselho e a vivência dos mais maduros ou dos “dinos”, usando um jargão do jornalismo.

Escutar os “dinos” nos engradece, pois, saber ouvir os conselhos dos mais velhos é sabedoria. Triste de quem se acha sábio ou sabido o suficiente, sem possuir conhecimento. Está enganando os outros e se engana a si mesmo.

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