Bertrand Lira

Bertrand Lira é cineasta e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB/Campus I


Em ‘Klondike: A guerra na Ucrânia’, um conflito bélico inspira mais uma vez o cinema

O embate entre Rússia e Ucrânia vem de longe, mas só agora toma proporções midiáticas expressivas. A diretora ucraniana Maryna Er Gorbach se inspira num fato marcante de 2014 desse conflito – a queda de um avião civil abatido por separatistas pró-Rússia – para narrar a história do casal ucraniano Irka (Oksana Cherkashyna) e Tolik (Sergey Shadrin) que vivem em Donetsk, próxima à fronteira do país e da Rússia. ‘Klondike: A guerra na Ucrânia’ (Ucrânia/Turquia, 2022, 100min) estreia no Brasil dia 05 de maio com distribuição da Pandora Filmes.

O pano de fundo para a história do filme de Gorbach é o conflito separatista e o acidente aéreo (real) com o Boeing 777 da Malaysia Airlines, abatido por um míssil Buk da Rússsia, usado por separatistas apoiados por Moscou. O voo MH17 com 298 pessoas partiu de Amsterdam em 17 de julho de 2014 com destino à Kuala Lumpur e caiu na província de Oblatsk, leste da Ucrânia. A sofrida jornada de Irka, Tolik e Yaryk se passa nesses nos dias difíceis pós-tragédia do fatídico voo.

A guerra, além dos riscos cotidianos, vai gerar conflitos entre Irka, grávida de sete meses, o marido Tolik, colaborador dos separatistas, e Yaryk (Oleg Scherbina), irmão de Irka, estudante em Kiev. A casa deles é bombardeada logo no início da narrativa destruindo a parede da sala e abrindo uma grande “portal” para a paisagem à frente, onde os momentos mais dramáticos do filme vão se desenrolar. Os dois homens da casa estão engajados em tirar Irka do lugar para um parto seguro, mas ela se recusa a deixar sua casa, em ruínas, no bucólico vilarejo. Tolik, por sua vez, submisso aos separatistas, vai entregando, paulatinamente, o pouco que possui: do carro aos meios de sobrevivência. Ele termina por sacrificar a vaca leiteira da família para alimentar o grupo armado.

A diretora Maryna Er Gorbach, ucraniana radicada em Istambul, que também assina o roteiro e a montagem de ‘Klondike: A guerra na Ucrânia’, narra esse drama sob um ponto de vista essencialmente feminino. A história é narrada pelo olhar de Irka que vê sua vida destroçada pelo conflito, tentando manter uma rotina normal com suas tarefas domésticas, enquanto se confronta com a postura ambígua de Tolik frente aos  amigos separatistas. Angustiada, esperando seu primeiro filho em contexto tão adverso, o olhar perdido de Irka não vê esperanças no vasto horizonte à frente que ela contempla pela grande fenda na sala aberta pela explosão.  A chegada do exército ucraniano só piora a vida deles.

Optando por longos planos-sequência fixos nos instantes mais cruciais da narrativa, como a cena em que Irka se contorce de dor parindo, sozinha, o filho, Gorbach se distancia de uma direção que busca imprimir ritmo à narrativa através de cortes rápidos, uso banalizado no cinema mainstream, sobretudo o hollywoodiano. A diretora vai buscar inspiração em diretores que souberam tirar proveito das limitações da câmera fixa e frontal à cena adotada no “primeiro cinema”, quando os diretores mais criativos exploravam esse espaço com o deslocamento dos atores em diagonais e longitudinalmente para criar a impressão de profundidade na cena. O francês Louis Feuillade foi um mestre no uso desse recurso de direção nos anos 1920. 

Com uma direção sóbria e segura, o filme de Maryna Er Gorbach nos toca por individualizar na figura de uma mulher o drama coletivo de uma guerra. Esta é a sua primeira direção solo. Antes, co-dirigiu com seu companheiro Mehmet Bahadır Er, cineasta turco, os longas ‘Omar and us’ (2019), ‘Love me’ (2013), ‘Black dogs barking’ (2009) e ‘No Ofsayt (2009). Com ‘Klondike: A guerra na Ucrânia’, recebeu um dos principais prêmios do Sundance Festival (Direção para filmes estrangeiros) e o Prêmio do Júri Ecumêncico do Festival de Berlim deste ano.

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